Reflexões escocesas

barefoot

 

O escocês, hoje, chegou antes de mim. Já estava descalço. Não vi os ténis, nem as meias. Como já não acredito em revoluções, admito que estejam num dos dois carrinhos de rodas, ao lado das toalhas. Mudou de fato-de-banho. Veste um, azul-escuro, debruado a verde-alface na barriga. Curto, só de tapar o rabo e deixar as pernas ao sol. Quando voltou da água, esteve dez minutos a escovar o cabelo louro. A escova, a esta distância de 50 metros, parece ser de pêlo branco macio. Na nuca, o cabelo faz-lhe uma curva de tijela de pequeno-almoço. Mas vê-se, como se dizia no meu velho bairro de adolescente, que é um russo de mau pêlo, ou seja, bom cabelo, farto e vaidoso. Despejou um frasco de protector e esteve mais dez minutos em regime de auto-massagem. Vou ler, pensei.

Uma hora depois, tiro os olhos de uma crítica do Pedro Marta Santos na Sábado, e vejo-o (ao escocês, bem entendido) em pé, a esfregar-se, com redobrada veemência, um segundo frasco de protector, mísero índice 15. É louco, o homem torra ao sol, durante horas. Não admira que tenha a cara em tons lagosta.

Ontem, soube que também ele tem um blog. Disse-me a menina dos gelados que, entre colheradas de stracciatella, lhe foi ganhando a confiança. O nome é bizarro: My Left Shoe. (Convenhamos, meus caros co-bloggers, que terem escolhido Escrever é Triste para nome do nosso, também é de uma descabelada melancolia).

Pior, escreve sobre as férias. Leio o post de ontem. Vou tentar traduzir o que consiga:

“… paraíso com habitantes peculiares. Àquele, vou chamar-lhe short belzebu, está cá todos os anos. É um regular. Chega, tira a t-shirt com a bonecada e desata a correr para a água. Já vem descalço. Tem os pés deformados, a planta espalmada. O left e o right.

E já volta a correr da água para a toalha. Foi entrar e sair. Parece o da anedota do coelho, ai vai ser tão bom, não foi. Seca-se, deita de um lado, deita do outro, e mete-se debaixo do toldo, na espreguiçadeira. Vêm para a praia, um sol que nem os gregos, e metem-se à sombra.

This guy, traz três pares de óculos. Vai-os mudando um a um, até acertar e começar a ler. Está sempre com o Moleskine preto ao lado e – por aqui se vê o desnaturado da população do país  – uma Montblanc com que toma notas. Passa horas naquilo, torcido, semi-nú, o peito coberto por uma camada tropical de pêlos. Também lhe podia chamar my sunshine monkey. Não precisa de gastar dinheiro em cremes, este.

Não tomem por persistência literária o que é uma débil doença latina de espírito. Tem um telefone ao lado que atende permanentemente e interrompe tantas vezes quantas as que se ouve um “bolinhas” gritado por uns vendedores de caixa branca. Compra-lhes e come uns bolos inqualificáveis de massa elástica enfarinhados com um quilo de açúcar.

A ideia lúcida, sustentada pela boa lógica, de que a praia é a combinação do mar com o sol, devendo, por isso, os seus utentes, tirar partido da água para se banharem e do sol para se bronzearem, é estranha a este ser, talvez humano, mas certamente desorganizado e sub-lúdico, que traz livros numa mão, duas caixas de óculos na outra, uma toalha ao ombro e uns calções de banho cerise – são cerise! I promise – maiores do que ele e que parecem cantar hip-hop sozinhos. Ainda bem que só venho cá de férias.”

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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14 respostas a Reflexões escocesas

  1. António Barreto diz:

    Será que o alegado Belzebu tem algo a ver com o caro Manuel?

  2. Temo que nesta macacada, um dos ramos me tenha sido reservado, caro António.

  3. Mais uma deliciosa crônica do meu querido amigo! Saudades desta terra que parece ter despertado de um profundo coma!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Querida Marise, como vai? lembro-me de si, da sua hostilidade activa ao calor e do seu amor à neve, sempre que estou de férias no mar. Que saudades. Sabe, que falei não há muito, com o nosso querido Jorge. Achei ele muito bem. Depois conto-lhe.

  4. Olinda diz:

    ai que riso!, guy Manuel.:-)

  5. Rita V. diz:

    Ah ah ah
    Dois voyeurs num só!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      … num só? E eu, Rita, tenho lá alguma coisa a ver com este tipo de Neanderthal?

  6. Ivone Mendes da Silva diz:

    Ahahahah, o que já me ri com este post e o que me apetecia comentar e não comento. Bem, fica já eleito o post do ano. Oh, Manuel Fonseca, que tristeza tão cerise.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ah, pois, vem aqui o raio de um escocês desfazer em nós e acha graça. Boa noite patriotismo…

  7. O que uma pessoa descobre no blog de um escocês malcriadão…

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Este escocês, seja qual for a cepa, tem sentido de humor. Estas suas descrições têm sido imperdíveis.

  9. nanovp diz:

    Virou-se o feitiço Manuel, qual blog-dentro-de-outro-blog…e se cada português e escocês em férias fossem afinal “bloggers”disfarçados? Lá se ia o descanso…

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