Sete dias de sexo selvagem em Ngorongoro

 

fotografias de Maria Bruno da Costa

fotografias de Maria Bruno da Costa

Bendito seja o leão que o homem comerá e o leão em humano se tornará; e maldito seja o homem que o leão comerá, e o leão se tornará humano.

Em A Confissão da Leoa, de Mia Couto 

 

Julho de 2013. Tanzânia, cratera de Ngorongoro, onde dizem que mora a maior concentração de vida selvagem do planeta. Uma vastíssima plateia de voyeurs a assistir a um improvável e épico espectáculo de sexo ao vivo. Entre eles, este vosso amigo, que não esconde um certo respeito, mesmo admiração, e até inveja talvez, pela resistência dos dois felinos – um macho e uma fêmea, bem entendido – que, orgulhosa e despudoradamente, a meia dúzia de metros de distância exibem o seu fulgor sexual. Nunca nenhum humano aguentou tanto. Sete dias a fazer “aquilo” quase sem parar é obra. E quase é mesmo quase. Intervalos de quinze a vinte minutos entre cada investida para retemperar energias. Durante sete dias, caçar está fora de hipótese e nem uma pata de gazela, uma ervinha sequer, se levam à boca. Só se pensa, só se faz “aquilo”. Uns segundos de cada vez, é certo, mas nunca se viram segundos tão bem sintonizados no prazer. E juro-vos – ou não estão a ouvir o som das fotografias aqui em acima? – que é bem humano o grito que soltam no pico do prazer simultâneo. Mais humano, até, do que os humanos são capazes.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

9 respostas a Sete dias de sexo selvagem em Ngorongoro

  1. GRocha diz:

    Graças a Deus 🙂 que não temos que o fazer durante sete dias quase sem parar 😛
    Como é que podiamos usar a velha desculpa da “dor de cabeça” ?!?!!? 🙂 😛

  2. Diogo Leote diz:

    Ficou por dizer, cara Graça, que o único fito da maratona sexual é mesmo que dela resulte a gravidez da fêmea. Para não haver a mais leve hipótese de se falhar o objectivo, o acto é repetido até à exaustão durante sete dias seguidos. Escusado será dizer que o leão que falhar o objectivo é escorraçado, sem apelo nem agravo, do clã. Até o beato mais fervoroso aplaude tanto empenho na missão de procriação.

  3. Bruto da Silva diz:

    procuraste:

    O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis

    en con traste:

    As crateras de Ngorongoro e suas vizinhas são adições recentes a paisagem. Depois de uma intensa atividade vulcânica por milhões de anos, o Kilimanjaro com seu canal central cheio de rocha sólida, e o material líquido no seu interior forçando para sair, a lava começou a vazar. “Fraturas circulares desenvolveram-se e o cone entrou em colapso formando a cratera. Diminutas atividades vulcânicas continuaram com a lava encontrando rupturas no fundo e nas bordas da montanha, criando os pequenos montes visíveis no interior da cratera”.- Lonely Planet East Africa

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Pasmei! Que fôlego, que destemperança, deuses.

    • O que mais me impressionou, Maria, para além da simultaneidade ao segundo da explosão de prazer, foi a ternura da coisa. Ele, o macho, mordia-lhe a orelha e ela, a fêmea, olhava para ele embevecida, em sinal de gratidão e plena satisfação. Quem diria que os leões podiam ser românticos. Até parecia um guião do Mia Couto.

  5. nanovp diz:

    Força de leão ou fraqueza humana?? Ou será apenas a paisagem? Grandes fotografias!

  6. A grande vantagem que os leões têm sobre os humanos é que não procuram racionalizar a coisa. Pura intuição animal. E funciona mesmo. A natureza nunca se engana.

  7. riVta diz:

    o rugido …
    um belo rugido de prazer

  8. Rita, fiquei convencido que, de tanto quererem os homens fazer-se passar por leões, os leões acabarão mais humanos que os próprios homens.

Os comentários estão fechados.