Um conto para o banner do Manuel San Payo

PRETO ASA DE CORVO

Está o mundo concertado para a normalidade, que é como quem diz para os que repetem os gestos que já foram vistos e por isso são sempre os esperados. Quem diz gestos diz acções e muitas omissões. Fica de fora uma meia dúzia de almas desalinhadas, grande solitários, pequenos excêntricos e incompreendidos sem tipologia onde encaixar. Gastão dera de muito novo sinais que não enganavam. O alheamento nos almoços de família ou o pretexto para não comparecer, a solidão tenaz que levantava paliçadas à chegada de quem quer que fosse. Vinham as irmãs indagar da última ausência e ele sorria: ó manas, se vocês lessem Drummond saberiam que escrever é triste porque impede a conjugação de outros verbos e um deles é “estar com” e sorria e elas desistiam por uns tempos. Até à Páscoa ou até ao Natal, o que estivesse mais perto. Já dentro do carro comentavam o alívio que fora ele ter ficado com a casa nas partilhas. Uma quase ruína de paredes salitradas e um sótão de má memória onde se enforcara um dia um primo que tinha cismas. Aquilo há-de cair-lhe tudo à volta, duvido que mande arranjar alguma coisa. Deixa-o estar, não te parece que está bem? E estava, embora nos últimos tempos uma ansiedade o aperreasse. Os livros vendiam-se medianamente, tinha um grupo de leitores que lhe apreciava as personagens desconsoladas, mas os críticos, mais palavra menos palavra, lá iam: “ Gastão Amaral até sabe gramática e tem uma sintaxe limpa, mas não sabe nada da vida. Não faz a mínima ideia do que é correr para apanhar o autocarro, nunca deve ter estado num centro de saúde à espera do médico que se atrasa, nunca se meteu numa briga de bar a desoras. Fazia-lhe muito falta apanhar um pouco de mundo, a não ser que se julgue uma Emily Brontë confinada a um qualquer Yorkshire e fique para sempre a escrever estes montes de onde não sopram, está provado, grandes vendavais.”
Era verdade, conferia Gastão. Os outros não o entusiasmavam nem o mundo o chamava. Conversava com as irmãs, obrigações, recebia de tempos a tempos a visita de Maria Luísa, uma sobrinha com ambições literárias e pouco talento que por lá passava a tarde e os olhos sobre as folhas escritas à mão. Devia arranjar um computador, já ninguém escreve à mão, é mais fácil até para emendar. Pois sim, mas prefiro, e olha que tenho aí um projecto de romance histórico. Há-de ir de pena e com velas acesas. Maria Luísa abanava a cabeça e olhava a figura do tio. Como acontece a alguns homens muitos altos e magros, Gastão tinha-se tornado giboso e o robe preto comprido em que andava sempre enrolado parecia acentuar, com o matelassé do tecido, a curva dorsal. Está velho, pensou Maria Luísa. Ó tio, toma-me conta do corvo? Vou sair umas semanas. Para que queres tu um corvo, que ideia, filha. Mas toma ou não? Deixa lá ficar o bicho.
Vai para o mundo, pensou depois de ela sair. A ideia de mundo andava a martelar-lhe os dias. Verdade fosse dita, dava dois passos até à farmácia e às compras necessárias mais adiante. Mais nada. Sim, claro, havia Dulce. Faziam um ao outro visitas regulares e conversavam sobre Prévert, objecto de uma tese dela anos atrás, antes de irem ao assunto da visita que era meterem-se na cama. A coisa corria bem, desde que não faltasse Prévert e que ele a contrariasse em alguma opinião para que ela pudesse defender com afinco a sua posição. Notava-se até uma correlação nítida entre o afinco posto na defesa da posição e o posterior desenvolvimento da visita. Por pensar nisso, disse de si para si. Mas não, já é tarde.
Voltou a sentar-se à secretária e recomeçou o texto. Trabalhou muito nas semanas seguintes. O crocitar ocasional do corvo pontuava-lhe as horas O bicho deve ter nome, esqueci-me de perguntar, pensava, e as horas rendiam-lhe mais do que nunca e pensava cada vez menos no mundo.
Maria Luísa tocou duas vezes à campainha. Adormeceu, pensou, e procurou no fundo da carteira as chaves que tinha. Não as encontrou e foi ao carro. Lá estavam no porta-luvas no meio de uma confusão de papéis e cds que jurou outra vez arrumar assim que tivesse tempo. Depois entrou. Na gaiola aberta, uma pena do corvo. No chão, o corpo morto do tio. Oh, diabo, disse alto. Começou a marcar um número no telemóvel mas o olhar prendeu-se-lhe a duas frases numa das folhas que não tinham caído da secretária. Apanhou as do chão, juntou-as às outras, ordenou-as. Sorriu. Tirou da carteira o pequeno pc e começou a copiar. Refrescava um adjectivo de vez em quando, aparava uma perifrástica que julgava evitável. E sorria. Depois disse outra vez alto: oh, diabo, tenho mesmo de chamar alguém. Os bombeiros ou a polícia? Não se consegue respirar aqui.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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7 respostas a Um conto para o banner do Manuel San Payo

  1. curioso (minitauro) diz:

    Ambos

  2. É preciso cuidado com os sobrinhos dados às letras. Cuidado com os sobrinhos.

    p.s. Havia um casal de corvos na bela torre do meu liceu.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Os sobrinhos dados às letras esperam sempre o benefício do inventário …
      Desse seu belo liceu é que eu gostava de ler mais histórias, com corvos ou sem eles.

  3. nanovp diz:

    Chamar a polícia, e culpar o Corvo, depois de ter passado a limpo o texto completo…

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Muito, muito bom! Reli, Ivone.

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