“Venenos de Deus, Remédios do Diabo”

Bo Bartlett – Inheritance (2010)

Bo Bartlett – Inheritance (2010)

Na sequência do “Manifesto do Amante Velho” do Henrique Monteiro, lembrei o livro “Venenos de Deus, Remédios do Diabo” de Mia Couto. Nele, o personagem Bartolomeu Sozinho, um solitário nos atalhos de uma vila africana, congeminava:

– “aos dez anos, todos nos dizem que somos espertos mas que nos faltam ideias próprias;

– aos vinte anos, dizem que somos muito espertos mas que não venhamos com ideias;

– aos trinta anos, pensamos que ninguém mais tem ideias;

– aos quarenta, achamos que as ideias dos outros são todas nossas;

– aos cinquenta, pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias;

– aos sessenta, ainda temos ideias mas esquecemos o que estávamos a pensar;

– aos setenta, só pensar já nos faz dormir;

– aos oitenta, só pensamos quando dormimos.”

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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8 respostas a “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”

  1. Veneno deste pode até ser remédio, não é, Maria?

  2. Um Bartolomeu assim espanta não ser Acompanhado…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Quando era garota, não havia modo de bem pronunciar Bartolomeu: no meu linguajar saía sempre «Bartomoleu». Tal como aeródromo: trocava por «aérodromo». tantas vezes a mãe me fez reparos que corrigi.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Que bom ter tido a sorte de lhe provocar sorriso! Não sendo a Rita de riso difícil, ainda asssim não é qualquer parvoeira que a faz rir.

  3. Bruto da Silva diz:

    Tem graça, mais que par voeira, que os dizeres do Bar Tolo Meu tão bem andaram nas ondas da rádio ontem, nada So Zinho, pelos ouvidos.

  4. nanovp diz:

    A sabedoria tem destas coisas: simples e certeira, sem nós, nervos ou curvas….

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