Vinte mil pessoas e um funeral

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Conversámos amenamente quando a conheci, já ela tinha morrido

Conheci Bonnie Parker em 1994, numa festa, na mansão de um “big shot” do cinema e da televisão, em Beverly Hills. Quando a conheci, já ela tinha morrido há 60 anos. Num sábado de Maio, sol da Califórnia, duas bandas de jazz, vastos relvados e as mesas debaixo de toldos protectores, como na festa de confirmação ou crisma do filho de Michael Corleone, no Godfather part II.

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Os 24 anos e duas pistolas de Bonnie Parker

Bonnie Parker morreu em 1934, a 23 de Maio, no mesmo dia, coincidência, em que morreu Clyde Barrow. Para mim, Bonnie terá sempre 24 anos, e agora que, em 1994, eu estava ali a falar com ela, era com os 24 anos dela que eu falava. E se, nessa tarde de 1994, eu e Bonnie, a Bonnie de Bonnie & Clyde, falámos amena e abundantemente.

Se não estou a mentir, e talvez não esteja, estou pelo menos a confundir. Talvez, nesse dia de Maio, eu tenha conhecido Faye Dunaway e, nos 53 anos dela, só tenha visto os 24 de Bonnie Parker. Faye, apesar de ser a fabulosa actriz de Thomas Crown Affair, Little Big Man, do superlativo Chinatown, ou desse mediano Network que lhe deu um Oscar, há-de sempre ser a Bonnie do nervoso, moderno-romântico Bonnie and Clyde, de Arthur Penn. Eu olhava e nos 53 anos de Faye Duanawy só via os 24 de Bonnie Parker. 24 anos fora da lei, sim, bem sei: mas quando a lei é, como naqueles tempo de crash e depressão, uma lei da selva, quem é que, por decência, pode ser outra coisa se não um fora-da-lei?

E volto à minha mansão nas colinas de Beverly Hills: eu a querer falar com Bonnie e respondia-me Faye. Eu a querer falar do Texas, Missouri, Lousiana e Faye a responder-me com o Algarve. Eu a querer sangue, perigo, um tiro à queima-roupa e ela “a minha casa de férias em Lagos”.

Pensei: Bonnie podia ter sobrevivido. Podia estar aqui. Bonnie era uma rapariga inteligente, a melhor aluna do liceu dela, quase tão bonita como a Faye Dunaway. Escrevia poemas, olha, quase Triste como a Triste Eugénia:

As long as I’ve stayed on this “island,“
And heard “confidence tales” from each “gal,“
Only one seemed interesting and truthful —
The story of “Suicide Sal.”

Ou, num estilo mais pungente:

If a policeman is killed in Dallas,
And they have no clue or guide;
If they can’t find a fiend,
They just wipe their slate clean
And hang it on Bonnie and Clyde.

Some day they’ll go down together;
They’ll bury them side by side;
To few it’ll be grief–
To the law a relief–
But it’s death for Bonnie and Clyde.

Bonnie tinha essa presciência da sombra da morte, tinha uma crua solidão que um casamento aos 16 anos não preencheu, um anel de noivado que, mesmo depois de ter conhecido Clyde, conservou até ao dia da emboscada fatal. Um desejo escapista escavava-se como um túnel em  Bonnie: o desejo de fazer cinema, esse cinema que há tão pouco tempo tinha começado a falar, a ser de palavras, música e sons.

Sem querer saber de sonhos, a polícia cercou-os, não sabendo que cercava Bonnie e cercava Clyde, em Joplin, Missouri. Fugiram, claro, rompendo a tiro a barreira, um sheriff morto, outro gravemente ferido. Os polícias sobreviventes encontraram vários rolos de filme por revelar. O talento de Bonnie era evidente. As fotos foram publicadas. Acenderam-se as luzes da ribalta e os jornais renderam-se a uma iconografia subversiva e romântica.

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Romântica e subversiva, Bonnie beijava para a fotografia

Quando, finalmente, e depois de dois anos de assaltos, 7 raptos, e 14 mortes, algumas a sangue-frio, Bonnie e Clyde foram emboscados e abatidos, com mais de 130 tiros que converteram o carro num passador e nos corpos deles desenharam perto de 50 buracos, a fama do par tinha conquistado a nação americana.

Vinte mil pessoas assistiram ao funeral de Bonnie em Dallas. A conversar com os 53 anos de Faye, vi neles o alívio que nesse dia terão sentido os 24 jovens anos de Bonnie. Cúmplice de todos os assaltos, dos infames raptos e dos cobardes assassinatos, é provável que o seu maior sonho fosse, afinal, ser a actriz que foi nas fotografias de Joplin, as fotografias que lhe conferiram tão terrível notoriedade e é, se não provável, pelo menos imaginável, que nunca a mão dela tenha disparado um tiro.

E agora me lembro de ver uma ligeira tremura na mão magra de Faye Dunaway.


mais de 130 tiros

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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11 respostas a Vinte mil pessoas e um funeral

  1. Olinda diz:

    centro e trinta lufadas de fantasia real, mas é, que é também realidade fantástica, caramba. lindo. 🙂

    (e meter a Eugénia entre os vinte e quatro e os cinquenta e três, entre as giras, em rescaldo, vai parecer-lhe bem.) 🙂

  2. Ficou deslumbrado, com a Faye, foi o que foi. Eu também ficaria. Mas chamava-lhe Evelyn.

    Quanto a mim, já tenho meia dúzia de poemas, um par de pistolas também, olhe, no meio desta crise, não está mal pensado. Falta-me o Clyde.

  3. Algo de outra cultura (não é só a americana que tem direito a vender):

  4. nanovp diz:

    Talvez prefira mesmo a Faye, sem revolver e sem balas….mas com aquela boca a fazer de triste…

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    A Bon­nie Par­ker bem conversada, a Faye bem observada.

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