A leste de Dean

James Dean em A Leste do Paraíso de Elia Kazan.1955

James Dean em A Leste do Paraíso de Elia Kazan.1955

Quando, ontem à noite, me sentei para rever A Leste do Paraíso, já sabia o que iria  acontecer. Eu não reajo à imagem de James Dean. Em nenhum dos filmes dele e devo tê-los visto todos. Não sei porquê, nem sei explicar muito bem o que é essa não reacção de que falo. Dean parece sempre ter acabado de chegar à sala onde os adultos conversam, vindo do quarto dos brinquedos. Chegou agora, sem lastro nem sombra,  e as suas brancas t-shirts nunca hão-de escurecer como as de  Brando.
Creio que Elia Kazan pensou precisamente em Marlon Brando e em Montgomery Clift para os papéis de Cal e Aron, mas ambos passavam já dos 30 e não iriam traduzir a gritante juventude das personagens de Steinbeck.
Ao olhar para esta imagem de James Dean, na cena em que Cal vai pedir um empréstimo à mãe, percebo que é isso, esse movimento de gestos lampos e verdes rebeldias que me afasta dele.
A Dean, faltou-lhe envelhecer. Um homem precisa sempre de muito passado. Nem que seja para saber dançar tangos cegos ou ensinar alguém a assobiar.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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14 respostas a A leste de Dean

  1. Rita V. diz:

    O tango cego é maravilhoso

  2. Ó querida menina Triste, ponha-se a chover no molhado, ponha. Experimente ir falar com a Naomi Watts e a Robin Wright sobre macios e jovens deuses. Deu nelas uma filo-incestuosidade que é bem pior do que o Dean a rapar uns trocos do porta-moedas da Cathy.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Eu sei, Tia, eu sei dos deslumbramentos dessas meninas. Mas que quer, sou como sou: acho muito mais graça aos homens que deram duas vezes a volta à vida e arrastam o lastro de muitos desencantos. Aqueles em quem a tristeza já apurou.

      • Fernando Marques Pinheiro diz:

        “Acho muito mais graça aos homens que deram duas vezes a volta à vida e arras­tam o las­tro de mui­tos desen­can­tos. Aque­les em quem a tris­teza já apurou”. Acabo de ler isto e venho a correr dizer-lhe que já dei duas vezes a volta à vida (veja o ano em que nasci), arrasto a grilheta de mil desencantos, e já estou bem apuradinho pela tristeza, pronto para ir para a mesa (para a mesa ?) e ser servido.
        Então, dê o sinal.
        Fernando Marques Pinheiro

  3. maria diz:

    Desorientei-me…agora já não sei se gosto mais do comentário se do texto !

  4. E faltou-lhe um filme de piratas à Errol Flynn:

  5. nanovp diz:

    Oh Ivone, mas há tanto a dar e a inventar antes de chegar aos trinta e tal…

  6. Maria Alexandra diz:

    É um prazer começar o dia a ler-vos.
    Obrigada 🙂

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