A procura da serenidade

amgelus

Não me venham com a conversa de “ai, eu não tenho tempo”. Não ter tempo, essa patético-moderna pretensão criativa ou executiva, é conversa de escravos, é religião de escravos.

Tenham tempo, inventem tempo, criem tempo, mandem no tempo. Isso sim, é conversa de reis, de quem tem vontade de poder, a verdadeira conversa de Nietzsche se Nietzsche hoje fosse gente.

Criem tempo para ver a hora e meia de conversa – e se for monólogo não é, por isso, menos boa conversa – do filósofo inglês Roger Scruton. É uma conversa inquieta, a conversa de alguém que quer, anseia, busca uma coisa essencial: voltar a casa.

O que é “voltar a casa” para a humanidade que somos? É nascer ou é morrer? E como é que, com essa tão violenta incerteza, se pode ainda assim ter serenidade, a consolação da serenidade?

Sabemos que vamos morrer, sim. É exactamente a conspícua consciência da morte que nos concede a percepção e o dom da beleza. “Gift”, diz o inglês. Presente, prenda que a morte nos dá em vida. Só vê o belo quem sabe que vai morrer.

Caminhamos para a morte entre clarões de beleza. Calçados, descalços, apressados ou lentos, caminhamos e há uma estranha “coisa” que nos falta. O que é essa “coisa” maior do que nós, essa sede que nos atormenta a caminhada? Amamos, conhecemos, extasiamo-nos e continua a haver uma “coisa” que nos faz falta. Donde vem a aflição da incompletude?

Roger Scruton defende a filosofia, o reencontro com essa busca que provocou no feiíssimo grego Sócrates a irradiação da alma através da luz divina. Ouvi Scruton e ele prometeu-me a eternidade. Os anos que vivi, os anos que eu viva, estão inscritos eternamente no tempo. São meus e são eternos. Sem eles o Tempo não seria o Tempo.  Ouçam-no, talvez a eternidade se venha aninhar na vossa mão.


Da série “Beauty and Consolation” gravada pelo Francisco Grave, cuja vida, sei agora, é eterna.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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18 respostas a A procura da serenidade

  1. Olinda diz:

    é por tudo o que em nós corre que se vive e que se morre. mas há quem fuja da vida jurando que corre da morte. serenidade é ter tempo para a vida, sim.

  2. marie diz:

    A serenidade é possível de se encontrar, agora, mesmo para quem crê, “a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”.

  3. celeste martins diz:

    Viver o presente como se não houvesse futuro. Hoje, aqui e agora agarrar o tempo, viver cada minuto com prazer para que não chegue o ” tempo de dizer” ” esqueci-me de viver” !!!!!!!!!!!

    • Viver cada minuto. Com prazer, sim, mas também com dor, com incerteza, com alegria ou medo. A serenidade abarca a compreensão de toda a gama de sentimentos e percepções humanas

  4. Serenidade? só ao acordar pela manhã:

  5. Não podia ter gostado mais.

  6. António Barreto diz:

    Ora aqui está, um dos grandes paradoxos das sociedades modernas; a evolução científica, tecnológica , política e social, ao buscar a segurança e conforto máximo, destrói a capacidade de cada um sentir-se parte, construtor, dessa eternidade.

    De facto, quem consegue imortalizar um momento, perante a compulsão permanente do pensamento na mortífera carga fiscal?

    Escravizámo-nos na busca da liberdade! Será que Nietzche estava certo e que a liberdade deveria ser garantida às elites “criadoras” colocando ao seu serviço, os trabalhadores não criativos?

    Será que a robótica, finalmente, nos libertará da culpa da escravização induzida ou compulsionada e, finalmente, nos proporcionará a defininiva liberdade?; ou seja; total disponibilidade para fruir, criando ou não?

    Novo paradoxo; a hipótese de maior viabilidade do acesso à liberdade pelo produto da inteligência do homem face à tradicional “Liberdade Divina”.

    Finalmente; e se, nem uma coisa nem outra; nem robôs nem deuses?

  7. Essa é uma boa conversa para ter – mesmo que seja em silêncio, com o Scruton. Prometo trazer, em breve, mais umas contribuições.

    • António Barreto diz:

      Faltam filósofos na ribalta! Andamos todos à nora! Alberto Buela diz que, hoje, os filósofos são os Jornalistas…não será mais um sintoma de decadência das sociedades atuais?

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Não creio que os jornalistas queiram a chinela dos filósofos, caro António…

  8. nanovp diz:

    Manuel sempre certeiro no lançar dos temas que realmente interessam, pelo menos a mim…, ainda não consegui ouvir ( problemas tecnicos) mas não vou perder isso garanto…

  9. Alberto Mesquita diz:

    Verdadeiramente consolador, nesta Babilónia em que vivemos…, obrigado!

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