Al Capone, menos Triste, mais Infame

 

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Al Capone: olhos vivos, luminosos, a boca carnuda e risonha

Entrou em Alcatraz em Agosto de 1934. O director da prisão não voltou a ter sossego. Choviam os telefonemas e as visitas. Já falta pouco para um século, Al Capone era para a Imprensa e para o grande público o que ontem foi um Beckham e hoje é uma Lady Gaga.

Tem pergaminhos o Príncipe Charles, têm pergaminhos a Dilma, a Merkel, Vitor Gaspar? Assim os tinha Al Capone. Era célebre e tinha conquistado, com inegável mérito, uma reputação. Na prisão federal de Atalanta, para onde, a 4 de Maio de 1932, primeiro foi conduzido, na sequência de minudências fiscais cuja emergência se terá devido a notória inveja social, foi-lhe reconhecido estatuto, o direito a uma identidade. Cultural, diria, e já vão ler porquê.

A alcatifa na cela, o majestoso rádio em que ouvia os seriados que antepassaram os nossos televisivos Dr. House ou Mad Man, a cama de água que, invento eu, lhe afagava uma embrionária hérnia, não eram, nessa cadeia de Atalanta, mordomias ilícitas, mas apenas a legítima defesa do valor e da lenda.

Há quem nasça sem vocação. Falo por mim que ainda busco, sombrio, a minha, depois de me terem dito que não ter nenhuma me conferia inapelável desclassificação cívica, filosófica e psicanalítica. Mas eu, poor boy, não nasci em Brooklyn onde as vocações são pré-púberes. Nasceu Al Capone que, imberbe em cima e imberbe em baixo, já geria um negócio de favores femininos. Foi, julgo, o mais jovem CEO do Four Deuces, um nocturníssimo clube de Chicago, cidade para onde se mudou aos 20 anos.

Por vezes em ambiente hostil, e rodeado da mesma ou maior incompreensão que pode, neste nosso imprestável tempo, cercar um primeiro-ministro ou um comissário europeu, Capone teve talento para desenvolver um invulgar e diversificado curriculum profissional. Numa lógica que menos de um século depois gerou as actuais indústrias culturais (estão a ver como eu a tinha fisgada) as indústrias do lazer  foram do seu particularíssimo apreço. As áreas das bebidas espirituosas e desse escape e entretém social que é o jogo mereceram-lhe a maior atenção, depressa se convertendo numa figura de referência, cujo management de excelência obteve reconhecimento universal – o conceito benchmark cai-lhe tão bem como lhe caíam os fatos que mandava fazer por medida, claro.

Apesar da exigência e do foco profissional que jamais descurou, Capone não se eximiu à transparência de uma vida pública de grande exposição que lhe granjeou até enorme popularidade. Contou muito a bonomia do seu aspecto: olhos vivos, luminosos, a boca carnuda e risonha, mas também a devota entrega a projectos de responsabilidade social, faz dele, como consta de relatos da época, um Robin Hood da Chicago dos anos 20, sempre pronto a patrocinar programas de assistência aos mais carenciados, programas que um olhar mais aquilino logo nota estarem nimbados da premonitória ideia de rendimento mínimo garantido que campearia em décadas vindouras. É, ainda assim, exagerada a sociológica leitura hagiográfica que tende a aproximá-lo da Madre Teresa de Calcutá. Peca, esse paralelismo, pela menor atenção concedida a contrastantes cambiantes geográficos e a metodologias que a utilização de certos aspectos físicos e tecnológicos tão ruidosamente distingue. Se estou a falar de muitos tiros e algum sangue? Sim, é provável que haja algum fundamento nesses rumores

Outro lado sensível era o do seu romantismo. Ainda hoje, passe embora a inconsciência das origens dessa tradição, o cortejo de multidões que em todo o mundo acorrem aos shopping malls no dia de São Valentim, deve tudo às indeléveis marcas com que Al Capone, numa iniciativa que quis modesta e reservada, imortalizou (se é que me autorizam o qualificativo) aquele dia em 1929. Sete rosas vermelhas em sete lindos corpos, ali por altura do coração.

O seu empreendedorismo dinâmico, a sua heterodoxia empresarial, a fácil relação com o povo eleitor, desencadearam a rivalidade dos políticos, num tempo em que as parcerias público-privadas ainda não tinham, porventura, condições económicas para germinar. Foi usada contra ele a injusta e desproporcionada arma fiscal. Perdeu essa primeira batalha.

Perderia a segunda quando, em Alcatraz, o sistema prisional o obrigou a escassez monacal e a quase trabalhos forçados, numa brutal regressão face às progressivas ideias de reinserção social que a cela de Atalanta, na foto abaixo, tão bem comprova.

Com este escorço biográfico presta-se singela homenagem a um homem que não seria perfeito, mas a que só o sarro do preconceito e a insuficiência das ciências sociais, ignorando-lhe a dimensão benemérita, obriga a apresentar, de tão idiossincrático, menos como Triste, mais como Infame.

Al_Capones_Cell_In_Eastern_State_Penitentiary

Uma cela vocacionada para a reinserção social

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a Al Capone, menos Triste, mais Infame

  1. Olinda diz:

    não, sexy não era, parecia um porco esfregado.:-) de resto, para o bem e para o mal, um homem que ficou na história precisamente pelo contraste que exibiu – contraste que temos, uns muito mais do que outros, todos.

  2. Só o estilo mudou; a essência da coisa continua por cá, agora com menos “rosas vermelhas por altura do coração”. A persuação do poder já não tem charme e em vez de rosas, usa grilhetas quânticas.

  3. Vou passar por cima do muito que me diverti com este texto, da toponimia imberbe ao inapelável romantismo, para reafirmar ao estimado autor a sua – sim, sua, Manuel Fonseca – perversidadezinha…

  4. “O grande público o que ontem foi um Beckham e hoje é uma Lady Gaga”, tem nas artes e ofícios lusos, que grandes são seus edifícios, de pluma, de caneta de tinta instantânea, de esferográfica, no mar na terra no dicionário no bolso, um hegeliano correspondente: O grande público o que foi Isaltino Morais.

    Entristecimento:

    https://www.youtube.com/watch?v=WXC0hlPFwlo

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