Discurso do Homem de Cro-Magnon exaltando o seu tempo

 

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Este é o meu tempo, o melhor tempo em que humano algum viveu

Tenho a felicidade de viver neste tempo de mudança. É absurdo rir-me, como vejo alguns contemporâneos fazerem, dos meus antepassados. Mas comovo-me, e por vezes arrepia-me, olhar para o patamar de penúria que era a vida deles: um tecto húmido, meia-dúzia de ossos e o vago calor de um fogo mal-amanhado.

Bem sei que não se consegue adivinhar o futuro, mas tenho quase a certeza de que o mundo nunca voltará a conhecer um tempo de prosperidade como o que os nossos olhos agora contemplam. Nós somos uma imensa geração de mudança. Em vez de um silêncio tartamudo, de ofensas guturais como as que ainda ouvimos aos neanderthais agarrados ao passado, desenvolvemos uma soprada forma de articulação, sons que abrem sorrisos e estimulam acções ou provocam igual resposta dos nossos irmãos humanos. Produzimo-los, a esses sons, entre a inspiração e a expiração. ”És a minha inspiração”, foi uma frase singular de uma humana com quem acasalei, que primeiro me chegou a vexar – “eu também expiro”, pensei – mas que, dois dias depois, me iluminou loucamente o coração. Descobrimos, e é isto que vos estou a dizer, a fala. É uma arte – vou dizer uma coisa irreverente que talvez nunca mais ninguém venha a dizer: é uma tecnologia – que produz um processo de comunicação, e que, em certos casos, diz mais, ou diz diferente, do que primeiro julgávamos ter dito. “És uma inspiração”, o que eu gostava de reencontrar essa humana, com que me pareceu ter acasalado tão bem, para lhe dizer a estranha alegria, um bocadinho sufocada, que foi perceber o mais que ela me estava a dizer no que, primeiro, tão pouco me pareceu ter dito.

Esses são os sons que saem dentro de nós. Mas temos vindo a criar outros sons, com madeiras, com cordas, com metais, que se juntam numa massa ordenada, num volume feliz. São sons que nos desencadeiam uma inquietação nos corpos. Harmonia, disse alguém, mas logo todos disseram que era música essa invenção moderna do nosso tempo. Dança é, ou talvez assim venha a ser chamada, a actividade rítmica do corpo. Os neanderthais olham, espantados, incrédulos, cépticos, para essas absolutas revoluções que, com alguma soberba, lhe exibimos na cara como estandartes de um tempo novo.

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dedos insensatos, circenses

Imparáveis, também, as nossas mãos. Como se os nossos dedos tivessem ganho uma agilidade insensata, circense, colorimos as paredes das nossas cavernas. Os leões que nos perseguem, os cavalos livres das planícies, o fero bisonte que continuamos a ver quando à noite fechamos os olhos, colámo-los às rochas das cavernas. De Vale Camonica a Cueva de las Monedas, de Lascaux a Altamira,  de Tassili n’Ajjer a Arnhem Land, mil escolas floresceram. Pintamos, sabemos pintar, uma coisa alucinada, vanguardista, na qual, a mão, alquímica, recorrendo a pós, líquidos, folhas desfeitas, e fazendo traços, riscos, leves incisões, inventa na caverna um pequeno espelho livre das coisas que na realidade exterior nos iluminam e nos atormentam.

Este é o meu tempo, o melhor tempo em que humano algum viveu, um tempo tão inovador, tão revolucionário, tão sinfonicamente criativo, a que nenhum outra futura humanidade terá o privilégio de assistir.

Eu sou este humano, Cro-Magnon, que fala aos seus irmãos humanos que o ouçam no passado e aos que venham a ouvir-me no longínquo futuro. Nestes vales não siliconados, ao longo dos grandes rios a que ainda não queremos dar um nome, do alto das gélidas montanhas, começámos a falar. Dizemos palavras. Com sons inventámos a música e é dança esta agitação ritual – “és a minha inspiração” – com que encostamos e afastamos os corpos. Desenhámos e fizemos escultura. Descobertas, descobertas puras, momento de criação inocente e plena.

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o chão que esconde os ossos

Há coisas que fazemos sem sabermos por que as fazemos. Não precisávamos de as fazer. Um impulso irresistível levou-nos a enterrar os nossos mortos. Nem mais um cadáver humano será abandonado às feras. Enterramos os corpos, cumulamos de ofertas esses túmulos, uma pedra por cima é o símbolo brusco (um sino se eu soubesse o que era um sino), para marcar com firmeza esse nevoeiro sentimental que nos causa olhar para o chão que esconde os ossos de um companheiro. Ao mesmo tempo, descobrimos e expulsámos um terror habitualmente nocturno criando símbolos. Não têm a exacta acuidade da palavra, nem o mimetismo do desenho. Parecem silenciosos e inúteis no seu mistério, na sua opacidade São um eco do mundo, um eco das estrelas, um eco de terra, céu e mar. Por vezes, como um cometa risca o breu, um símbolo ilumina-se: compreendemos, então, como num happening (e é certo que ainda não sei, sabendo-o, o que é um happening), por um fulgurante segundo compreendemos lucidamente o universo que, logo a seguir, deixamos, de novo, de compreender.

Outros tempos, porventura mais práticos, talvez prosaicos, quererão saber a causa das coisas. Neste tempo exuberante, prodigioso, que é o meu tempo, embebedamo-nos com o esplendor do significado. Apaixonámo-nos pela pregnância da natureza. Sabemos – ou queremos – ligá-la a uma ressonância humana e chamámos-lhe arte, a uma ressonância cósmica e chamámos-lhe religião.

Não há nada de novo, depois desta explosão criativa, para ser descoberto. Este tempo é o tempo super-humano, real e surreal, a fusão do espaço e do tempo, a explosão atómica do mais poderoso cérebro que aos humanos foi concedido. Depois de nós, virão gerações e gerações de irmãos humanos, errand boys, moços de recados, merceeiros e escriturários que hão-de, por séculos e séculos, inventariar o que, em plenitude, pavorosa delicadeza, arrepiante inocência, só nós, primordiais, expansivos e transbordantes, na verdade, toda a verdade, criámos.

Se algum intrépido estudante do secundário, com exames de segunda época (?) à porta, se puser a ler esta prosa, deverá ter em conta que ninguém, nem mesmo o Homem de Cro-Magnon é bom juiz em causa própria. Com excepção do mais circunspecto e assentimental Homem de Neanderthal, nós, Humanos, tendemos a congelar as nossas memórias afectivas, de modo que só dizendo toda a mentira, dizemos a verdade; e é quando juramos dizer toda a verdade que dizemos toda a mentira.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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16 respostas a Discurso do Homem de Cro-Magnon exaltando o seu tempo

  1. Bruto da Silva diz:

    Se já existisse a banalidade francesa, teria advertido os vindouros “honi soit qui mal y pense!” 😉

  2. celeste martins diz:

    É bom vivermos este tempo de magia e ler, com prazer e gratidão, um “inspirado” Homem do nosso desafiante presente !!!!!

  3. E a mulher de cro-magnon? que trata o homem como canídeo:

  4. Esta é uma das frases notáveis que aqui encontrei : “(…) foi uma frase sin­gu­lar de uma humana com quem aca­sa­lei, que pri­meiro me che­gou a vexar (…)”.
    Fernando Marques Pinheiro

  5. Olinda diz:

    tão lindo! 🙂 ser inspiração é a melhor forma de, expirando, respirar.

  6. Se alguém me chamar, minha inspiração, juro que lhe respondo, meu cro-magnon…

    Ps: não inventámos nada, nadinha. Bem caçados estes caçadores.

  7. riVta diz:

    Um belíssimo resumo!

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Devorei, como compete a uma Cro-Magnon. Depois, pela sofreguidão e pelo repasto, arrotei.

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