Eu gostava de chover

wallpaper-chuva-no-telhado-4083Eu não chovo e imagino que tu também não.
Chover é um verbo que só os deuses conjugam.
Eu gostava de chover.
Tornar-me bátegas, fazer-me água,
ser líquido, plúvio, um dilúvio.
Eu gostava de chover sobre as coisas.

“Vê lá se queres qu’ eu chova
sobre ti e sobre a tua mãe”
ameaçaria um dia.

Gostava de chover atoleiros
e estradas intransitáveis.
Gostava de mudar paisagens,
largar-me em lençóis de água
que limpam, limpam, limpam
até ficar tudo rico de lama.
Gostava de fazer poças onde os passaritos
engolem girinos recém nascidos.
Gostava de chover sobre as coisas.
Chover sobre si, menina,
num dia quente,
sem aviso nem antecipação,
até a t-shirt ficar molhada
e a menina arrepiada,
e os mamilos tesos, magnéticos,
polos de atracção.
Gostava de fazer-me em chuva de Verão.

Mas chover é verbo
que não podemos conjugar.
O mais parecido que temos
é esta coisa da fala e da escrita
que derramamos ao vento e no branco.
Talvez esta verve seja líquido
e a escrita, a chuva em que me faço
e que te mando para cima.
Mas não te arrepia os mamilos.
Não como a chuva fresca
numa tarde quente de Verão.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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24 respostas a Eu gostava de chover

  1. Olinda diz:

    tão lindo e tão fresco: tal e qual chuva.:-)

    (olha, pois eu cá chovo-me muitas vezes. desfaço-me em água à moda da Amélie)

  2. GRocha diz:

    Temos poeta 🙂 Gostei! Parabéns!

  3. cc diz:

    Bela chuva de Verão! Era bem vinda neste Algarve que hoje abrasa e poderia tomar um banho de mar com chuva que é uma coisa que só África nos dá.
    Comprei o livro (Rolando Teixo) e gostei muito, simples e conciso. Por causa dele andámos este Verão por aí à caça de teixos.
    ~CC~

  4. celeste martins diz:

    Bela chuva poética que nos refresca a alma……!!!!

  5. Pedro, estás a propor que, com os mesmos objectivos, em vez dos concursos de t-shirt molhadas, se faça um concurso de escrita para t-shirts secas? Acho melhor registares já a patente.

  6. Vizinha ? diz:

    És surpreendente !!!!!!

  7. Monica vizinha? diz:

    Surpreendente!!!!
    Bj!

  8. ERA UMA VEZ diz:

    “Será chuva será gente? é talvez a ventania”

    SIM
    eu chovo
    chuvisco
    inundo
    invado
    e cresço um rio

    Tento juntar algumas lágrimas do dia
    para apressar a enxurrada

    depois exausta
    sopro devagar
    e
    ao primeiro raio de sol
    pacifico e adormeço
    e nesse recomeço
    abraço finalmente a madrugada

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Também eu gostava de chover, embora o não conseguisse com esta beleza.

  10. h2O diz:

    Nasceste da água, ainda antes de existires. Assim te fez o teu pai.

    E aposto que os mamilos estavam arrebitados. ( com todo o respeito)

  11. raffapan diz:

    adorei imaginar esta chuva tao limpa e sensual, 🙂

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