Fui daqui colher saudades

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Fui daqui colher saudades
que a saudade não pega perto,
só lá longe.

Atravessei toneladas de alcatrão a ferver
para chegar ao ermo da saudade.

Parecia infinito, o ermo da saudade,
e as saudades perdiam-se no horizonte
muito para lá do que se alcançava ver.

Tinha na cabeça colher quantas pudesse,
todas as que encontrasse,
ter o máximo de saudades.

Apanhei-as dias inteiros, semanas, meses a fio.
Quando colhi a última, olhei
e vi um ermo careca de saudades.

E as que tinha colhido,
e arranjado em bonitos ramalhetes,
murchavam.

A saudade tinha fim.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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15 respostas a Fui daqui colher saudades

  1. celeste martins diz:

    Triste ou nostálgica, a saudade pode também ser companhia …se de tempos bons …….!!!!

    • Pedro Bidarra diz:

      Não a conheço triste. Só saudade, uma coisa em si mesma como é; nem triste nem alegre nem boa nem má mas da mesma categoria destes sentimentos

  2. Paula Santos diz:

    Também vim dos Olivais Sul. Ainda hoje é o meu sítio. O sítio da casa dos meus pais e da casa das minhas memórias mais valentes. Sempre que lá vou (e vou muitas vezes) reparo nas alterações que faz quem não é de lá.
    Não sou triste mas fiquei. De saudade. 😉

    • Pedro Bidarra diz:

      Eu de lá tenho saudades dos baldios que mais tarde ou mais cedo serião substituidos por prédios. É a vida das cidades

  3. Olinda diz:

    tinha fim por ser, de longe e de fora, fabricada. 🙂

  4. Olinda diz:

    acordei a pensar na analogia da saudade com a flor, belíssima, e tinha mesmo de vir cá dizer isto: tenho uma grande falha – sinto saudade, não na ausência, na presença. e é por isso que as flores frescas não podem murchar.

  5. Tenho andado a apanhar saudades no blog – oh, mas que vasta planície! Mas um dia também me meto à estrada.

  6. nanovp diz:

    A cura para a saudade pode ser o re-encontro, mas melhor é mesmo senti-la…

  7. Pedro Lupi Caetano diz:

    A Saudade, quando bem tratada e regada, só murcha se apanhar bicho.

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