Hollywood raramente se engana e nunca se cala

Publicado no Expresso, sábado, 24 de Agosto

MGM

Ó Mr. Norton, não é só no La Chunga, também já dancei aqui

Para fechar a silly season, e ao fim de dois anos de aturado labor intelectual, autorizo-me uma lista fútil. São episódios que, de certos filmes, teriam feito filmes diferentes. Outros, bem mereciam ter dado um filme.

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A West não era cama de Cukor

 1. Acreditem, a primeira escolha para a velha actriz que protagoniza “Sunset Boulevard” foi Mae West. Escolheu-a George Cukor, que, por não as querer levar para a cama, em mulheres nunca se enganava.

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Nem morto, nem gigolô

2. Ainda em “Sunset”, Montgomery Clift devia ter sido o escritor, o morto, o gigolô – nunca a ordem dos factores foi tão indiferente. Monty não quis que fosse a sua estreia no cinema. Tivera um affaire com uma senhora mais velha e de boas rendas. Temeu que a coincidência e o rumor lhe envenenassem a carreira.

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o amigo judeu

 3. O famoso aviador Charles Lindbergh era um estafado pró-nazi. Para receber um prémio, levou um dia o seu amigo Billy Wilder  num aviãozeco. Lá no ar, vira-se Wilder para ele: “E se caíssemos agora? Já viste as manchetes amanhã – Lindbergh despenha-se com o seu amigo judeu.” 

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lá se foi a cara de pau

4.     Gostava de ter visto Cary Grant ao lado de Greta Garbo, a empedernida comunista de “Ninotchka”. Era o que Lubitsch mais queria e os produtores não deixaram. A história ideológica do século XX seria outra: Garbo e a cara de pau do comunismo teriam sorrido mais cedo. 

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só mato três pessoas

5. Assustado com as campanhas anti violência contra “The Mummy”, Christopher Lee, que era no filme essa “múmia”, veio proclamar inocência: “No “The Mummy”, só mato três pessoas. E não o faço de forma macabra. Limito-me a partir-lhes o pescoço.”

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o homem e o ócio

6.  O que mata um homem é o ócio. Lubitsch trabalhava 6 dias por semana, 16 horas por dia. Filmava “That Lady in Ermine”. Meteu-se na cama, fez o que tinha a fazer e morreu de ataque cardíaco. É verdade que, em arminho ou não, ao lado dele, entre lençóis, estava, vivíssima, uma lady, que o seu motorista retirou discretamente. O ócio mata um homem e lady que é lady fica incógnita para a eternidade.  

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não era boca de beijos

7. Jack Lemmon era um prodigioso actor. As mãos e a cara dele faziam tudo e bem. Mas era incapaz de levar uma cena de amor até ao fim. Atacava os preliminares e quando a boca se chegava aos beijos, desatava-se a rir. Todavia foi ele a primeira escolha de Wilder para “The SevenYear Itch” com Marilyn. A Fox, malvada raposa, não deixou.

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Otto, please

8. Para a antestreia das quatro horas de “Exodus”, o épico sobre o nascimento de Israel, Otto Preminger, o realizador, pediu a um actor judeu, Mort Sahl, que fosse o convidado de honra. Decorridas três horas de projecção, Mort saltou da cadeira, pôs-se de joelhos e implorou: “Otto, let my people go.”

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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14 respostas a Hollywood raramente se engana e nunca se cala

  1. Olinda diz:

    a viva que morre e o morto que vive. aqui fazia falta o George Cukor, o tal homem visionário de talento, para evitar a tragédia. 🙂

  2. Se houvesse uma doce Jane:

  3. … e o primeiro filme, digno desse nome, que fizeram, foi A Free Ride (1915), realizado por A. Wise Guy, fotografia Will B. Hard e títulos Will She.

  4. nanovp diz:

    Que sumarentas Inconfidências da terra dos fabricantes de sonhos, Manuel!

    • Um dos tipos mais engaçados a revelar histórias destas era o Billy Wilder. Há uma entrevista dele, um livro inteiro, com o Cameron Crowe que tem para aí uma smil histórias loucas.

  5. riVta diz:

    8 ‘curiosidades’ giras
    mais!

  6. É bom espreitar pelo buraquinho da fechadura da má e boa língua holloywoodesca… Fun!

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