Na casa da memória não há espelhos

 

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Gary Lynch mete o belo e a consolação no laboratório

Se fossemos pássaros e tivéssemos o cérebro humano viveríamos até aos 240 anos. Porque é que, no corpo que temos, o nosso cérebro envelhece tão depressa? Porque é que vivemos tão pouco? Que mistérios se escondem o cérebro e, sobretudo, que tremendo mistério é a nossa memória, como é que ela se codifica no cérebro?

Gary Lynch, um extraordinário neurocientista, num programa de uma curtíssima hora e meia, ao contrário do novo-riquismo arrogante de um incerto cientismo, afirma que o trabalho da ciência é o de se confrontar com profundos mistérios e, elucidando-os, criar outros, porventura maiores, profundos mistérios.

Primeiro mistério: a memória, diz Lynch, dura a vida inteira, mas as proteínas que a conservam são efémeras, duram um dia, poucas horas. Ou seja – e autorizo-me a resumir tudo na minha linguagem trauliteira – as proteínas que guardam as memórias guardam uma coisa que aconteceu quando ainda nem existiam, são proteínas que, paradoxalmente, não viram, ouviram, saborearam coisíssima nenhuma. Como é que guardam tudo, interroga-se e interroga-nos Lynch. É contra-intuitivo, jura ele.

O que é o pensamento, o que é a consciência? Lynch aventura-se em explicações arrojadas não necessariamente darwinianas. Um evolucionismo simplista está longe de o seduzir. Contra a claustrofobia emocional e intelectual, numa fascinante viagem, que vai das pinturas rupestres de Lascaux, passando por Da Vinci, Darwin, Einstein, Lynch leva-nos a uma varanda de onde se vê uma paisagem humana e cósmica diferente. Sim, a ciência está a resolver e vai resolver muitos mistérios, mas não há fim, não haverá nunca esse dia em que “saberemos tudo”. Cada mistério resolvido abre outras dimensões. Está lá, à nossa espera, uma legião de mistérios que hoje nem sequer pressentimos.  Talvez uma teoria do envelhecimento do cérebro, como a que Lynch tem vindo a desenvolver, consiga aumentar brutalmente a duração da vida humana. “And that will be funny”, diz ele.

Mas estou a fazer-vos perder tempo. Com vivacidade, irreverência, com mais comédia do que drama, o neurobiólogo Gary Lynch mete o belo e a consolação no laboratório.

Da boca dele saem coisas que, nos meus melhores dias, nem da boca de Jorge Luis Borges pensei ouvir: “Na casa da memória não há espelhos. Não nos podemos ver a nós mesmos no momento em que o cérebro nos gere.”


Thanks Chico Grave!

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a Na casa da memória não há espelhos

  1. Olinda diz:

    o cérebro é fodido, Manuel. e quando se fode o cérebro, fode-se tudo. foda-se.

  2. Ora aí está, Olinda, vai deixar de ser. Bastará tomar as ampaquinas.

    • Olinda diz:

      andei a ler umas coisas e a essas também lhe chamam, talvez absurdamente, pílula da inteligência. haviam de lhe chamar espelho de noz.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Os cientistas genuínos e genais são como Gary Lynch: simplificam conteúdos elaborados sem perder o rigor. E tão verdadeiro é que não esquece ser a curiosidade o principal recurso para detetar mistérios, deles partir para a modéstia da tentativa e erro na resolução.
    Obrigada por trazer este neurocientista e a sua dissertação.

  4. ana moreira diz:

    Obrigada Manuel! Muito interessante.

  5. Dóris diz:

    Quem é o autor de:O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

    Dóris
    dorishsssg@gmail.com

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