Na ponta da língua de Mae West

 

Mae West swan shaped bathtub

Há uma certa diferença entre uma golden swan bed e uma chaise longue

Publicado a semana passada no “Expresso” para comemorar o 120º aniversário do nascimento de Mae West

Ter 120 anos não é sexy. Se estivesse viva, Mae West festejaria hoje esse aniversário. Temo que a ideia de ser sex-symbol aos 120 a encantasse.

Nascida em Queens, criada em Brooklyn, rosto demasiado redondo e corpo pesadamente rectangular, o certo é que Mae West se converteu num sex-symbol. Em seda, arminho, outras peles e pose obscena, desse físico, que estava contra ela, fez um íman para virilidades incandescentes.

Começou cedo no teatro. Mais cedo tivesse começado, mais cedo teria ido parar à prisão. Em 1927, estreou Sex em Nova Iorque, acabando condenada a 10 dias de prisão por atentado à moral. Ui, foi uma penosa reclusão. Fez uma exigência: usar sempre roupa interior de seda. O director do estabelecimento, compreensivo e com inclinações artísticas, levou-a ao cinema todos os dias, menos dois, os que, por bom comportamento, já não cumpriu.

Hollywood deixou-se levar pelo odor a controvérsia e convidou-a para o cinema com a improvável idade de 38 anos. Talvez nenhum dos poucos filmes dela seja obra-prima. Mas com “She Done Him Wrong e I’m no Angel firmou uma reputação. E ouçam-na, é que bastaria a inesquecível voz.

Estou a ser um unhas-de-fome, porque há quem veja nela outros fulgurantes valores: os caracóis louros, o olhar malicioso, o corpo que talvez seja muito menos rectangular do que eu disse e mais próximo do reclinado conforto duma “chaise-longue”. O reclinado conforto é preguiça minha, a “chaise longue” é preguiça do ensaísta David Thomson.

A mim bastar-me-iam as coisas que disse e a rouca maneira como as disse. Cito três das suas mais famosas réplicas: “Tens uma pistola no bolso ou estás apenas contente por me voltar a ver?” frase dela que o olhar discreto e baixo confirmava em She Done Him Wrong, parece ter sido o que, na vida real, disse ao polícia que, em L.A., a foi escoltar no regresso duma viagem. A polícia de L.A. dever-lhe-á para sempre um palmo de auto-estima.

Intraduzível, digo eu por timidez, é o que ela sugere a Cary Grant, no primeiro filme que fizeram juntos: Come up and see me some time. Será que um “levanta-te daí e anda cá ver-me um bom bocado” lhe faz justiça em língua portuguesa? Em inglês, americano ou português, ouvi-la dizer, com voz de blues e bagaço, “Quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou muito melhor” acende uma labareda de volúpia em “I’m No Angel”.

Estas réplicas, ditas como ela as disse, deram pela primeira vez espessura à palavra libido, até aí uma palavrinha técnica e sem sal. Constrangida, Hollywood inventou o divertido e proibitivo Código Hays, que determinava o que se “podia” e o que “não se podia” fazer, fingir que se fazia ou dizer. Inveterada optimista, Mae West reagiu bem: “Acredito na Censura. Fiz uma fortuna à conta dela.”

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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17 respostas a Na ponta da língua de Mae West

  1. Alberto Perry diz:

    A imagem femenina do glamour de Hollyhood nos ambientes ArteDeco!

  2. riVta diz:

    gol­den swan ou chaise long are perfect for her
    😛

  3. Olinda diz:

    tomava sete chás seguidos com ela, sentadinhas no cisne dourado, a mulher com a alma – e a libido, vá – na boca. ainda hoje essas suas expressões são risota e, que importa?, populistas. palminhas!

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    A round of applause for Ms. West!

  5. E, no fundo da garganta:

  6. Algo mais suave para a garganta:

  7. Muito ritmo, e naughty, para celebrar esta naughty girl. Ela gostaria.

  8. Outra Mae West, só que era “muda”, não lhe ouviam a rebaldaria, (será que escreveram a história das doenças venéreas que as vedetas dos primórdios da artes pegaram?):

    http://www.youtube.com/watch?v=eEu0w4TJl9E

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Logo havia de se lembrar de mito que estimei e estimo… Perfeito!

  10. nanovp diz:

    Confirma-se que as meninas más vão para qualquer lado, prisão incluída, com resposta rápida na língua…

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