Nusrat and Eddie

Podia começar por vos dizer que Nusrat foi um mestre do qawwali. E que o qawwali é um estilo musical sufi, com origens no Afeganistão. Estou certo que ficariam como eu fiquei: como boi a olhar para palácio. Podia até tentar levar a explicação mais adiante, dizendo-vos que cantar qawwali é uma tradição (e também um negócio) familiar de mais de seiscentos anos na família de Nusrat. Pouco adiantaria, aposto, para despertar um milímetro da vossa curiosidade. Teria de tentar outro estratagema para captar a vossa atenção. Tão fácil como pronunciar o nome de Eddie Vedder, que dispensa qualquer tipo de apresentações. Pois é, se vos disser que Nusrat já foi companhia de Eddie, aposto que dele já querem saber tudo. Que nasceu no Paquistão quando este já era um país, que, além de Nusrat, é Fateh Ali Khan, e, até, que morreu em 1997, com 48 anos de idade, dizem que de obesidade mórbida. Mas tudo o que vos diga sobre Nusrat, incluindo que tinha uma amplitude vocal de seis oitavas e que assim conseguia cantar horas e horas a fio de solos improvisados, será pouco, muito pouco, se comparado com o que dele saberão se o ouvirem. Vão à confiança, já vos disse que o Eddie gostava da companhia dele.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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8 respostas a Nusrat and Eddie

  1. riVta diz:

    querido Diogo
    mais um bocadinho para acompanhar o que vinha a calhar era mesmo um nihaari ou pulao ou quem sabe kofte, kebabs, qeema e korma sempre. As lentilhas é que não!
    😀

  2. Diogo, só me admirou não aparecer o George Harrison atrás dele a cantar o My Sweet Lord

    • Diogo Leote diz:

      Tens toda a razão, Manuel, o George Harrison, depois do Marco Polo e do Vasco da Gama, voltou a apontar, muito antes do Eddie Vedder, o caminho do Oriente, através do Ravi Shankar.

  3. Pedro Bidarra diz:

    Digo-te o que vou fazer. prá semana tenho que atravessar o Alentejo a meio da tarde, hora de calor. Vou gravar isto em loop e ouvir durante as duas horas da viagem, tipo banda sonora. Depois, quando chegar ao fim, faço uma avalianção do meu estado psicofísico. Talvez, em vez de chegar ao Algarve, chegue ou Nirvana.

  4. nanovp diz:

    E sente-se o tempo nessa língua, aliás muito musical…escusado será dizer que só conhecia o Eddie…

  5. Pois é Bernardo, eu também não suspeitaria que o Eddie me pudesse apresentar amigos como este. Temos mesmo de estar mais atentos às companhias do Eddie.

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