Pátroclo, o herói sem biografia

aquiles e Patroclo

Aquiles e Pátroclo – ama-se sempre o nosso duplo

Pátroclo é um herói sem biografia. Quando o vemos só o vemos para melhor vermos Aquiles. Teve mulher e filhos? Um cão que fosse?

Sabemos que criado com Aquiles, como irmão, o amou e protegeu em vida e o assombrou depois da morte. Amou-o desinteressadamente. Amor romântico porventura, insinuam agora as leituras de revisão da matéria dada.

Aquiles amou-o também distraidamente – ama-se sempre o nosso duplo. Dolorosamente, só quando o soube morto: rojou-se pelo chão, cravou as mãos na terra que espalhou depois pelos cabelos, enquanto lhe corriam grossas lágrimas pelo rosto – são sempre grossas as lágrimas do herói clássico. As escravas choraram com ele e o clamor chegou ao céu, a Tétis, a deusa sua mãe. Porque Aquiles também era divino e é mais fácil ser-se herói quando se é divino. Pátroclo era apenas herói de ser herói, por pura virtude, pura areté, essa virtude que Homero vê como sobre-humana, como ensina a “Paideia”, de Werner Jaeger, que, tivesse-me eu educado bem,  teria sido a minha grande educadora.

Há em Pátroclo uma resignada consciência do destino trágico. Como se soubesse que a única pincelada biográfica que lhe conhecemos – ter morto covardemente, em criança, um amigo que com ele jogava aos dados – mais tarde ou mais cedo viria borrar a tela em que a sua madura areté se fixou. Pátroclo sabe também que é um herói homérico inserido num ciclo vicioso de vingança. E que ele é ou vai ser, mais tarde ou mais cedo, o bouc emissaire de um desfile de morte e impiedade. Esse momento trágico, a morte de Pátroclo, é o prelúdio para que, como uma orquestra sinfónica, Aquiles possa atacar, a seguir, com som e fúria.

Antes, humilhado, caminhara ao lado de Briseida, a escrava de Aquiles, para a entregar ao arbitrário Agamémnon. Caminhou ao lado dela com um silêncio de Egas Moniz. Sofrendo na carne a traição que a carne de Aquiles muito mais sentia. Agora, o destino concede a Pátroclo um momento de volúpia. Entra na tenda de Aquiles a chorar como uma menina (não sou eu, mas Aquiles quem o diz), aterrado de compaixão com a mortandade que os gregos estão a sofrer e a que Aquiles assiste indiferente, obstinado no ressentimento a Agamémnon.

Comovido com o choro leal de Pátroclo, Aquiles ordena-lhe então que vista o seu escudo, o escudo em que Hefesto pintou céu, terra, mar, o fogo que tudo consome, o “sol infatigável”, as estrelas e a lua, as cidades mais belas, as bodas, as festas e as celebrações dos humanos. Essa faiscante visão harmónica do universo – concepção épica de Homero – por si só, vista-a quem a vestir,  fará tremer o mais viril inimigo. Fará recuar os troianos.

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o escudo em que Hefesto pintou céu, terra, mar, o fogo que tudo consome, o “sol infatigável”, as estrelas e a lua, as cidades mais belas

Homero, que fora abundante e eufórico quando noutro canto descrevera a vasta couraça, é, agora que Pátroclo a vai vestir, sucinto à beira da escassez:

O guerreiro não esperou segunda ordem e começou a vestir a resistente couraça. Colocou, depois, as cabeleiras, que prendeu às pernas com fivelas de prata. Lançou aos ombros a espada de bronze com incrustações de prata e sobraçou o imenso escudo. Pôs o capacete de bronze, bem modelado e sólido, tendo no alto um penacho de crina, que por si só bastava para infundir pavor ao adversário, na cabeça.

Mas, apesar da contenção de Homero, nós podemos adivinhar o frémito que Pátroclo se autorizou ao vestir as armas do amigo. Um pingo de divindade caiu-lhe deslizando sobre o peito. Talvez tenha fechado levemente os olhos e sonhado, fugaz, a vida e a biografia que nunca teve, nunca terá: uma casa, filhos, o vinho espesso e doce que se bebe à lareira, o rumor das palavras de um filósofo que se convidou para animar a mesa, a noite. Um segundo apenas, o arrepio e o deleite de um segundo. Um segundo que logo passa. Lá fora esperam-no, a batalha urgente, o fio da espada do troiano sedento do seu sangue.

Pátroclo tomba agora, de novo, a carne retalhada, nesta página tristemente escrita. Hão-de ouvir-se os gritos terríveis dos doze troianos que Aquiles degolará sobre o seu túmulo. Sangue, vingança, o cortejo de mil dores. No recolhimento sombrio de um quarto, só o choro de Briseida recorda ainda o doce Pátroclo.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Pátroclo, o herói sem biografia

  1. Olinda diz:

    pois para mim chega bem a biografia que acabaste de fazer-lhe: doce e bravo e corajoso e amoroso. 🙂

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Obrigado Olinda, junte, pois, o seu enlevo ao manso choro de Briseida…

  3. Estou a precisar de reler os clássicos – ó diabo… acho que foi o tio Drummond quem disse isto.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Estamos todos, estamos todos. Se pudesse enfronhava-me uns bons meses com o Ulisses a fazer o odisseuco périplo.

  4. António Barreto diz:

    Pátroclo é o paradigma do meu conceito de herói; sem ascendência divina, nem aspiração de imortalidade, contrariamente a Aquiles, condoeu-se do infortúnio dos seus compatriotas, negando-se a si próprio, morreu, lutando bravamente, sem glória, suscitando porém a viragem na sorte da guerra pela adesão de Aquiles – sedento de vingança -, libertando o amor entre este e a doce Briseida.

    Não esqueçamos porém o frágil Páris, o grande causador da tragédia, ao sacrificar o reino de seu amado pai por amor à bela Helena.

    Nem tão-pouco devemos esquecer a nobreza de Heitor, que por amor de Páris, seu irmão, acabou vencido, às mãos do insuperável e admirador Aquiles, pois bastaria entregá-lo às forças sitiantes para salvar o reino.

    Não fora porém o engenho do “manhoso” Ulisses e poderia ter sido oposto, o desfecho. Por isso me dececionou (isto do AO é um 31), por me parecer elevada a causa dos Troianos – embora Páris e Helena bem merecessem umas boas “chibatadas” (com chibata de penas) -, e espúria a dos gregos que ali viram um pretexto de expansão dos seus domínios.

    Adoro os clássicos gregos! Boa malha, caro Manuel.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Já vejo, António, que esta é uma praia sua. Palpita-me que também cá virei a banhos, com Helena e Páris. Ou pela honra de Heitor.

  5. nanovp diz:

    Pois os clássicos, que conheço tão mal…e que bem que sabem estas investidas ao tempo passado, tempo esse paradoxalmente tão perto do Homem contemporâneo…Tudo isto num Blog “ao pé de si”.

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