Summer Blues

Porque começou, como tudo o que interessa verdadeiramente, por uma necessidade. Um grito sofredor, cântico que brada aos céus.

O tempo poliu, transformou, espalhou essa semente, a que alguns chegaram a chamar de “semente do diabo”, por toda a terra.

A necessidade de cantar a mágoa do amor que pode nunca chegar, ou que chegou e pode não voltar; da vida que foge, escorreita, para a velhice. Ou a vida simplesmente dura, árdua de labuta, nas mãos gretadas pelo sulco da pobreza. Nos filhos que morrem, nos pais que desistem de o ser.

Nos campos, sobre a névoa branca do algodão, as vozes entoavam como se o céu fosse fechado e o eco ribombasse de volta para a terra. Foi, antes de ser outra coisa qualquer, essa expressão de louvor de graças ao céu, à vida: “Oh amazing Grace!”.

Na memória de uma África mãe, mais tarde numa história de luta, das plantações de algodão, ao Sul já branco de Memphis, às ruas de sombra gelada de Chicago. “Going up the river”, o Mississipi, do sul para o norte, sempre a subir.

A música negra do fundo da América é um sentimento que nunca acaba: dispersa-se, confunde-se, embrenha-se, do “marti gras” ao “gospel”, ao “blues”. Começou negra mas agora já não tem cor.

E sente-se, cada dia de forma diferente, como a vida que corre. E haverá poucos dias que passam sem que passe por mim.

 

 

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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8 respostas a Summer Blues

  1. rita vaz pinto diz:

    Dizem que Blues é dor, mágoa, cura, conforto, feitiço…. E tantas outras coisas.
    Para mim, E POR TUA CAUSA, é sobretudo uma música mágica que entra em cada poro da minha alma.
    Obrigada

  2. António Barreto diz:

    São ambos soberbos, caro Bernardo; o tema, os intérpretes e…o texto.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    É uma música com alma a pedir muito corpo.

  4. Bernardo, assim que pus o disco a tocar, senti-me logo em casa. Que bem trazido.

  5. nanovp diz:

    Home , Sweet Home, não é Eugénia ?

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