A Oeste do Paraíso

"Como Um Trovão", de Derek Cianfrance

“Como Um Trovão”, de Derek Cianfrance

O cinema do futuro tem dois caminhos. Ou se torna cada vez mais experimental, ou ambiciona algo de muito mais complexo: um fôlego romanesco equivalente à grande literatura. “Como um Trovão” é fascinante porque ambiciona esse fôlego.

Luke (Ryan Gosling, tão carismático como o jovem Brando) é um motociclista acrobático do Poço da Morte numa feira itinerante. Percebendo que Romina (Eva Mendes) teve um filho seu, resultado da passagem da troupe, um ano antes, por aquela pobre terrinha entre as árvores, Luke contraria o “pathos” de nómada solitário e decide ficar, cuidando de Romina e do bebé. Mas a sua natureza é errática, compulsiva, e começa a roubar bancos para garantir o futuro da nova família. Ao fazê-lo, renega o passado, destrói o fluxo invisível do presente – as personagens de “Como um Trovão” estão presas ao Destino como marionetas, incapazes de cortar os fios – e o drama cede à tragédia. O filme transforma-se em dois filmes: do fortuito encontro com um polícia ingénuo, Avery (Bradley Cooper), nascerá a reprodução dos mesmos conflitos quinze anos depois, agora na pele perplexa e ansiosa de Jason, filho de Luke, e de A.J., filho de Avery.

“Como Um Trovão” tem vários defeitos (por exemplo, não perde um segundo para acrescentar espessura às personagens femininas). Mas a sua lógica primeva ressoa fundo: os pecados dos pais marcam para sempre os pecados dos filhos; somos impotentes face ao destino. O falhanço é o resultado dessa lógica, como o era nos filmes de Michael Cimino, filmes infectados pela vã miragem da utopia. Porque o mundo de “Como um Trovão” tem dezenas de milhares de anos, é mais velho do que a civilização. Nele, a natureza comanda, e o nosso percurso não é nosso porque não podemos controlar as curvas da estrada e o caminho para onde elas nos levam. Porém, abraçar a sua inclemente engrenagem é fechar os olhos, respirar fundo, voltar a abri-los e aceitar o mistério da vida tal como ela é – desesperadamente intangível. E bela, muito bela. Como o cinema. Num lugar para além dos pinheiros.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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3 respostas a A Oeste do Paraíso

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Belo texto, escrito entre os pinheiros, é claro. O que gostei – como tu – do filme.

  2. Gosto muito quando gostamos. Sobretudo ambos entre os pinheiros (só para não me acusarem de misoginia).

  3. nanovp diz:

    Gosto desses mundos que são sempre os mesmos, do descontrolo nas curvas….e da beleza do cinema que inventa a vida…

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