Apitam como uma panela de pressão

Não gosto de textos escritos a golpes de marmeleiro. Temo o tipo que escreve sempre aos gritos.

Mesmo quando um tipo diz “merda” ou se expande num “é mas é o caralho”, gosto que o diga com alegria, uma gota de candura, um pingo de doçura, sem amargura decrépita nem recalcamento adolescente.

Já vivi alguns anos, já li alguns livros, vi cinco ou seis filmes. Neles aprendi que do perseguido que rufa como um tambor, não é descabido esperar que um dia nos apareça com editais de perseguição ou de exclusão. O histerismo vitimizado esconde – pode pelo menos esconder – uma esperança torcionária.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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15 respostas a Apitam como uma panela de pressão

  1. é assim mesmo: um falar carregado de personalidade. mas é preciso, para isso, ser-se seguro – e assim tudo se diz. 🙂

  2. Pedro Norton diz:

    palavras sábias doutor. o drama é que o histerismo contagia.

  3. António Barreto diz:

    É bem verdade, mas há de tudo, caro Manuel; os que gritam e são, efetivamente, vítimas, e os que, docemente, suavemente, exercem as maiores tiranias! Mas é um facto que a retórica da vitimização é frequentemente usada pelos torcionários.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Há de tudo, claro. Toda a generalização é o diabo, caro António. Mas não é muito usual a verdadeira vítima gritar muito. Nem é por que não queira. É porque não pode.

  4. Ah! ele é isso, então na série grandes frases dos movies, de um filme ainda maior Act like a bitch, get slapped like a bitch:

  5. nanovp diz:

    Muitas vezes, é no acalmar da gritaria que somos surpreendidos pelo fanatismo dos que a apregoam…

  6. Outro grande script, onde podes aprender… línguas:

  7. Nessa veia didática, sei que não fumas, mas podes podes explicar nas reuniões mundanas que as pessoas estão a fumar pelo lado errado, e fazer um vistão que nem um Descartes nas cortes europeias:

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