Besta célere*

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert[1]

 Anda para aí uma besta à solta. Célere, como atesta o primeiro lugar do ranking de vendas em França, com mais de 750.000 exemplares vendidos em meia-dúzia de meses. E bem mais perigosa do que as outras bestas céleres do mercado. Primeiro, porque vem travestida com recomendações de entidades insuspeitas como a Academia Francesa (de quem recebeu o Grande Prémio), a revista Lire (Melhor Romance em língua francesa) e o júri do Goncourt (Prémio Goncourt des Lycéens). Depois – e fica já aqui o aviso – porque vicia. Os incautos e imprudentes que tomem nota do nome da besta: “A verdade sobre o caso Harry Québert”. Como muitos outros vícios, este que a besta célere em causa provoca é particularmente nocivo. Estupidifica. A história é contada como se tivéssemos todos nascido ontem. Faz-nos passar por burros, muito burros. Entre trama (uma espécie de Twin Peaks em versão púdica e infantilóide), personagens (estereotipadas) e situações (improváveis ou metidas a martelo para fazer avançar a história), pouco ou nada se aproveita. Salvam-se, vá lá, os diálogos, que, embora básicos e imberbes, são escorreitos e com ritmo qb para permitir uma leitura a despachar. E salva-se também, para o escritor – Joel Dicker, um suíço na casa dos vinte anos, que ainda deve estar para perceber o seu sucesso editorial – o facto de a besta, implacável, nos ir arrancando o cérebro à medida que as páginas se sucedem, não nos permitindo largá-la enquanto o mistério da morte de Nora Kellergan (aquilo em que a Laura Palmer se teria transformado se a sua história tivesse sido contada pelo Ron Howard a membros do Tea Party) não se resolve. Um último aviso para todos os que arriscarem a leitura até ao fim: se acabarem a confundir o livro com uma besta perigosa, vão ao médico; e, se chegarem ao ponto de sintomas tão preocupantes como escrever textos sobre a besta – perdão, o livro – em blogues com algumas aspirações artístico/pedagógicas, vão escrever para outro lado. Ou abandonem a escrita de vez.

* Também conhecida como best seller no mundo da indústria livreira.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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7 respostas a Besta célere*

  1. Olinda diz:

    teria de ler para concordar ou discordar de ti, Diogo. mas já viste o poder, o teu poder, neste momento? provavelmente sequer vou anotar para ler. ou não, e farei precisamente o contrário. sou da opinião de que não existem leitores bestas – é preferível sempre ler a não o fazer. posto isto: será que existem escritores bestas ou não passará tudo, inteligência a privar, por uma relativização do perigo?

    • Olinda, mesmo meio descerebrado pela besta, guardo a lucidez suficiente para concordar contigo: é sempre preferível ler qualquer coisa, por pior que seja, a não ler nada. De leitura em leitura, o leitor perseguido pelas bestas é capaz de tropeçar nalgum clássico. E depois até lhe pode dar para não querer outra coisa.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Pior que o escritor de thrilers Dan Brown?

  3. nanovp diz:

    Até me assustei…venha o Harry Potter….

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