Capitão Alatriste, Pérez Reverte, Madrid

Velazquez, La Rendición de Breda, Museu do Prado

Velazquez, La Rendición de Breda, Museu do Prado

Aventura literária começada por tela no Museu do Prado. Velázquez, o autor. “La Rendición de Breda”, o nome. Professora de História da Arte acompanhava punhado de adolescentes. Coincidimos frente à “Las Lanzas”, como é mais conhecida a obra. Imponente pelas dimensões, composição, luminosidade e transparência. Ouvindo a professora, como se fora mais um dos seus pupilos, fui além no saber sobre o contexto histórico retratado: a conturbada Espanha nos finais do século XVI e princípios do seguinte. Reinava Filipe IV. Decidida empreitada militar: a recuperação da cidade de Breda, na Flandres, como ponto nevrálgico para outros avanços nos Países Baixos. Breda cai e a tela reproduz a dignidade dos generais e militares de altas patentes no momento da rendição dos holandeses. Comentada a falta do Capitão Alatriste entre os generais Spinola e Justino de Nassau. Do tal capitão ao livro e seu autor foi um passo. À leitura do “Capitan Alatriste”, em espanhol, outro.

“El Capitan Alatriste”, o primeiro duma coleção onde são narradas as aventuras do arrebatado capitão por Arturo Pérez-Reverte, revelou-se memorável companheiro de viagem quando em Madrid o apelo havia sido a combinação de duas exposições: Picasso no Reyna Sofia, Modiglianni no Tyssen. Lembra as intrépidas aventuras de capa e espada de Dumas com diferença substantiva: Dumas não pretendeu expor a tragédia de ser francês enquanto Arturo Pérez-Reverte revela toda a amargura vivida na decadente Espanha do século XVII sob o reinado de Filipe IV.

Réverte escolhe um mercenário, um personagem lateral à sociedade, porém orientado pela ética. No hoje, ontem e amanhã também contam, um proscrito pela atual manipulação de valores como decência, vergonha pela cobardia em vigor, dignidade, honradez e reputação. Personagem memorável como Sherlock Holmes, Marlowe, Hercule Poirot. Regressada há dias duma surtida a Madrid, de novo exposições temporárias como objetivo – Camille Pissarro no Tyssen, Dali no Reina Sofia -, Réverte foi a companhia literária escolhida.

Dali, “The Great Masturbator”, (1929), acervo do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, capa do catálogo 2013

Dali, “The Great Masturbator”, (1929), acervo do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, capa do catálogo 2013

Na temporária de Dali, apenas seis obras emblemáticas constam; as restantes são de períodos menores ou indefinidos do artista, excetuando as dos primeiros anos na caminhada. Nestas, sim, matéria, traço perfeito, investigação bem patentes. Nas seguintes, é o «lambido», a facilidade dos contornos a preto, ausência de matéria. Usar ou não o óculo, tanto faz – a perspetiva mantém-se, frequentemente, numa bidimensionalidade pobre. Os hologramas são banais, as esculturas melhores sem que espanto seja consequência. Maravilha em Dali a rutura com o até ele feito em pintura, com o domínio do traço se o tratado é o corpo humano. Remata a exposição uma patética tentativa impressionista, bem como outra na pop art. Talvez a simultaneidade desta exposição com outra de Dali no Pompidou explique a escassez das obras mais aplaudidas.

Camille Pissarro, “A Cowherd on the Route de Chou Pontoise”

Camille Pissarro, “A Cowherd on the Route de Chou Pontoise”

As temporárias do Thyssen jamais me desiludiram. Ao entrar, confiança e entusiasmo no auge. Duas horas de puro deleite. Pedagógicas para quem arrisca nas telas formas e cor. O que aprendi, deuses, com a sábia técnica de Camille Pissarro! Tantos erros meus detetei no até agora concretizado! Vontade infinita de voltar aos linhos e aos óleos. Noutros lugares, vi coletivas impressionistas. Nunca, nem o Monet dos meus amores me ensinou o que no Tyssen aprendi. Significativa a demora dos visitantes perante qualquer das obras. Fascínio na leitura ao longe pela tridimensionalidade e clareza das formas; se ao perto, na aparente confusão dos matizes e consequente indefinição das figuras, ensinamentos transmitidos por via da matéria e pinceladas. Equivalente em abrangência e qualidade a esta temporária, apenas a do Rousseau na New Tate. No Met, faltou-me sorte na época das visitas. Noutros ícones museológicos mundiais, o mesmo. Mas esta, esta conversou comigo com tal paz que esquecê-la é impossível. Pissarro online é nada, Dali online é tudo.

Nesta Madrid triste e desesperada pela crise económica, o vazio. Turistas nem vê-los. De novo, Arturo Pérez-Reverte acerta na amargura vivida na decadente Espanha do século XXI.

Nota: por engano, ao eliminar rascunhos, apaguei o texto. Tentarei repor os comentários entretanto publicados.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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10 respostas a Capitão Alatriste, Pérez Reverte, Madrid

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Táxi Pluvioso – Uma artista desse tempo, do século XVI:

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    JP Guimarães – Estas férias de Verão, enquanto no desterro (leia-se Vilanova de Milfontes), também me dediquei ao Pérez-Reverte. Comecei precisamente pelo mesmo Capitão Alatriste e segui com “La Piel del Tambor”. E não dei o tempo por mal empregue. Antes pelo contrário.

  3. riVta diz:

    e as sau­dade que eu tenho das aulas de His­tó­ria de Arte do Manuel Rio de Car­va­lho
    http://e-cultura.blogs.sapo.pt/95599.html
    obri­gada Mª do Céu

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Nunca assisti, mas pela mostra fiquei aguada. Obrigada por ter repetido o comentário.

  4. Olinda diz:

    aprende, pinta, e depois vem contar – é boooommmm.:-)

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Maria do Céu, mas que rica vida. Ele é reina Sofia, tempo´rárias no Thyssen, capitães e aventuras. Viva, viva, quem sabe viver a vida.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Foi para compensar as unhas partidas e as crostas de feridas nas pernas que trouxe como recuerdo da Beira.

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