É Cego Quem Não Quer Ver

História Universal da Infâmia

História Universal da Infâmia

Jorge Luis Borges.

Só o nome faz tremer de medo. Medo do volume da produção, do gigantismo da figura – se bem que doce como um harmónio numa festa de ciganos -, das vénias, das referências.

No mundo de Borges cabem todos os mundos, mas o dele é um mundo inimitável. Como Swift ou Kafka, Italo Calvino ou Isaac Asimov, Fellini ou Tarkovsky, Borges não reconstrói o quotidiano. Inventa uma realidade nova, feito leitor probo mas letal da Biblioteca onde se juntam as enciclopédias galácticas de civilizações alienígenas – todas, porém, fundadas na ambivalência do humano.

 É preciso tirar o chapéu e cumprimentar os deuses da leitura quando se abrem os livros maiores de Borges. Talvez por isso, pela gravidade das obras-primas que o argentino é o primeiro a recalcitrar, prefiro a “História Universal da Infâmia”. É um livro enorme, um livro-mapa, mas na bibliografia borgesiana faz figura de nota de rodapé, exercício de estilo, ritual iniciático, recreação da mente, restos do almoço. Tem apenas 118 páginas, e li-o há 20 anos numa excessiva parcimóni – o exemplar, da Assírio e Alvim, mantém-se branco como vestido de noiva e intacto como virgem que o envergasse, sem os rabiscos, as dobras, os comentários fúteis, os sublinhados demenciais com que gosto de recriar, devorando, os livros (um livro é para se comer, como um bolo de chocolate ou uma colega de liceu).

 Trata-se da breve recolha de dezassete contos curtos, escritos entre 1933 e 1934 em tom de treino de ginástica da prosa, pontuados por exercícios livres, quedas desajeitadas no colchão, saltos divertidos e meia-dúzia de cambalhotas sublimes, ignorando o espaldar do naturalismo.

Há quem localize aqui a raiz do “realismo mágico” sul-americano, mas essas maquinarias do espaço-tempo são para os cara de pau da História oficial. Esta história lida com fantasmas, os fantasmas de esqueletos enterrados na terra húmida e mítica dos samurais da tanga, dos pistoleiros da pinga, dos mentirosos compulsivos – a magnífica mentira emocional de Borges – dos profetas com uma fome das  Arábias, dos piratas com uma lata do caneco, das donzelas espoliadas da sua graça, dos velhos de cara tatuada pela iniquidade dos seus crimes, das crianças disformes de tanto roubar memórias alheias, dos feiticeiros sem feitiço, dos sonhadores sem toutiço e dessa ponte de gárgulas e querubins que une a realidade com a fantasia como se ambas fossem amantes de cio providenciado pelo fim do mundo.

 É o próprio Jorge Luis que o diz: “Estas histórias são a irresponsável brincadeira de um tímido que não se animou a escrever contos e que se distraiu em fabricar e tergiversar (sem justificativa estética, vez ou outra) alheias histórias. (..) Derivam, creio, das minhas releituras de Stevenson e de Chesterton e também dos primeiros filmes de Von Sternberg, e talvez de certa biografia de Evaristo Carriego”.

Que se lixem as justificativas estéticas. São elas que estendem a mão falsa para nos conduzir ao deserto ético da pós-modernidade. Prefiro ser guiado por um cego.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a É Cego Quem Não Quer Ver

  1. No deserto, sempre será melhor um cego que ser atacado pelos berberes.

  2. Rita V. diz:

    Olha se fosses o Rui Costa…nao escrevias assim.

  3. sem tergiversar: os teus posts, Pedro, também são para comer até arrotar.:-)

  4. nanovp diz:

    Um cego como o Borges vale por um milhão de visionários da treta que pululam o nosso quotidiano…
    Um mestre!

  5. Não me importava de encontrar essa menina no deserto, Táxi. Rita e Olinda, queridas como sempre. Acho que Borges cegaria de novo com o que hoje se passa, Bernardo.

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