Entretanto, em Casablanca…

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E casaste com ele? Em Paris?

– Sim. Vieram duzentos e cinquenta convidados do Cairo, vê lá tu. A minha Mãe e a minha Irmã podes imaginar, chegadas nessa manhã de Boston viram-se metidas numa enorme festa norte-africana com cabritos assados no espeto e bailarinas Egípcias a falar francês. Coitada da minha mãe – diz F. com um sorriso.

Está sentada num banco alto à minha frente com uma flauta de Chardonnay na mão. Encontrámo-nos por acaso no Terminal C do aeroporto de Newark e numa mútua estupefacção que quase nos impediu de falar, sentámo-nos aqui neste escuro e triste bar de aeroporto. Eu regresso a Itália, ela viaja para Paris. Um conferência sobre arte barroca ou qualquer coisa do género. Confesso que não prestei muita atenção tamanha é a minha surpresa em encontrá-la aqui, de repente, depois de mais de quinze anos sem a ver.

Continua lindíssima. Tínhamo-nos conhecido no coração da Pensilvânia, e para ser mais preciso, no corredor do segundo andar de uma Fraternity, numa das muitas festas que de quinta a domingo inundavam de álcool, marijuana, Grunge Rock e Hip-hop o campus da universidade. Nesse longínquo inverno de 1993 batemos juntos todas as festas e concertos da universidade. Tornámo-nos muito rápidamente fuck-friends. Uma relação sem compromissos, sem horas nem complicações. Só com preservativo. Ou talvez seja só eu que, na memória do egoísmo dos meus vinte anos, recordo as coisas assim. Quem sabe. Já não importa agora. O que é um facto é que a coisa acabou mal, numa cena deprimente à porta de um bar da 2nd street e que recordo de forma bastante nebulosa. Provavelmente bebíamos demais para que uma verdadeira fuck-friendship pudesse funcionar, seja lá o que isso seja. Deixámos completamente de nos ver quando acabei o mestrado e fui para Boston. Ela entretanto acabou Arquitectura e foi para Nova Iorque. Vimo-nos uma última vez numa Alumni Reunion passados dois anos. Acabámos por nos embebedar de novo juntos uma última vez e por dois dias e duas noites retomámos intensamente a nossa muito especial amizade and that’s that.

E é aqui que a história rocambolesca que agora me conta, começa. Não que eu esperasse que se tivesse casado com um dos red necks da Delta Phi ou da Lambda Chi que andavam sempre atrás dela. Ou que vivesse no Maryland com quatro filhos, guiando um SUV branco esmaltado e continuando a montar o cavalo que tinha na velha casa do pai e onde fomos uma ou duas vezes juntos. Não esperava por isso que se tivesse transformado num cliché, um cliché parecido com aquele em que eu próprio, com os anos, me tornei. Mas uma história assim confesso que não ma poderia imaginar.

E pelo que me conta, em Nova Iorque, ao frequentar um mestrado na NYU, conheceu um tipo Egípcio, um daqueles meninos vindos do Médio Oriente que ao volante de BMW´s descapotáveis e financiados pelos pais, frequentam caros mestrados nos EUA e que apesar de irem de férias para Miami e Vail de quinze em quinze dias, os boards das universidades não têm coragem de mandar para casa. E aí apaixonou-se. Perdidamente. Creio que suspeitasse que a estrada em que se estava a meter era angulosa mas creio também que o seu sangue rebelde lhe tenha inundado os ventrículos da bomba que é o seu coração. Ele pelo seu lado desfez-se em atenções. Sem que ela lho pedisse, cobriu-a de jóias, sapatos e trapos de marca. Jantavam nos mais exclusivos restaurantes da City e os nomes de ambos figuravam nas guest lists dos eventos mais posh do Soho e do Meat Market District. Passado menos de um ano ele propôs-lhe abandonar o mestrado e mudarem-se para Paris. Resolveu segui-lo. Quando aí a pediu em casamento, não hesitou e disse-lhe que sim. Na semana seguinte foram ao consulado Americano e passadas umas semanas, este, estando casado com uma cidadã americana, obteve sem problemas o seu green card.

F. olha agora para mim com um sorriso triste.

E aí mudou tudo de repente. Na semana seguinte a ele ter obtido o green card, deixou de dormir comigo. Sexo só às quintas feiras à noite. Deixámos de sair e passamos a ter em casa um monte de gente que nada tinha a ver com ele. Sobretudo marroquinos. Mas estava apaixonada e divertia-me com aquela gente toda pois lá no fundo eram simpáticos e tratavam-me sempre bem. Pus-me a aprender Francês e a passear por Paris a conhecer a cidade. Seis meses depois e apesar da pouca frequência das nossas relações, fiquei grávida. O H. continuava a viver de uma renda que lhe chegava do Cairo mas a um certo ponto começou a viajar em continuação. Não sabia onde ia e ele não mo dizia. Fomos duas ou três vezes aos Estados Unidos juntos. Pedia-me que não dissesse nada à minha mãe. A determinada altura decidiu que iríamos viver para Marrocos. Fiquei muitíssimo apreensiva. Sabendo disto, a minha Mãe decidiu vir-me visitar. Queria que eu o deixasse e voltasse para os Estados Unidos. Discutimos durante três semanas consecutivas até que se foi embora vencida e perdida nos seus argumentos.

Então e depois?

– Depois transferimo-nos para Casablanca e a minha vida tornou-se num inferno.

– Porquê tratava-te mal? Batia-te?

– Não, não batia, mas tornou-se ainda mais radical e primitivo. A determinada altura a nossa casa começou a ser frequentada por um tipo de gente que eu não reconhecia dos dias de Paris e que não me dizia nada de bom. Sauditas e paquistaneses, solteiros e sempre em movimento. E aí percebi que tinha feito um erro colossal. Eram todos muito novos e não olhavam para mim e insistiam para que eu não estivesse presente enquanto comiam e conversavam. H. parecia temê-los e tornou-se ainda mais evasivo. Duas semanas depois de chegar a Casablanca perdi o bebé. Fiquei desesperada. H. começou a insistir para que eu não saísse de casa alegando que eu tinha de descansar para recuperar e para ganhar forças para quando engravidasse de novo. Comecei a tomar um anticoncepcional sem que ele o soubesse.

Toma fôlego. Peço mais um copo de vinho para ela e uma Becks para mim. Tenho a sensação de que não conta esta história a muita gente. Balbuceia e procura as palavras certas como se fossa a primeira vez que as usa, de frente a um assistente social ou um psicólogo. Tem de ir à casa de banho. Vou controlar o ecrã com os horário de partida. Tenho ainda quarenta minutos.

No princípio de Agosto desse ano H. desapareceu. Saiu de casa num Sábado e fiquei sem notícias durante três semanas. Comecei a preocupar-me seriamente e fui ao consulado americano. Podes imaginar o olhar do secretario do Cônsul a olhar para mim depois de lhe ter contado a minha história. Mandou-me para casa condescendente e paternalista. Comecei a tentar contactar os nossos amigos em França sem grandes resultados. Nunca cheguei a conhecer bem a sua família pelo que também nada soube por aí. No início de Setembro decidi ir a Paris ver se o encontrava. A minha esperança não era muita mas tinha que fazer qualquer coisa. No dia da partida estava a fechar a mala a preparar-me para ir para o aeroporto e apanhar o voo da tarde para Paris quando a minha vizinha de casa me começou a bater à porta de casa como uma possessa gritando que um avião tinha caído na minha cidade e que estava tudo em chamas. Corri a acender a televisão e gelou-se-me o sangue ao ver as Twin Towers em chamas. Para além do choque brutal que senti estando ali sozinha longe de tudo, fiquei presa imediatamente de um subtil mas terrível pressentimento.

Passei o resto desse dia e dessa noite a chorar ao telefone com a minha mãe. Fiquei três dias em frente à televisão, dia e noite, a beber café. Queria saber tudo. Quem eram as pessoas que ali tinham morrido. Comecei a fazer telefonemas para amigos de Nova Iorque e a chorar sozinha alguns amigos perdidos. Quando consegui finalmente um bilhete para Nova Iorque, fechei a casa e deixei tudo para trás. À chegada, no aeroporto, foi horrível, estive oito horas numa sala com quatro tipos do US Customs. Estive depois em casa da minha mãe durante algumas semanas. No fim de Outubro veio o Secret Service a nossa casa. Ao abrir a porta acho que sabia já tudo o que tinham para me dizer. Tinham seguido a pista de H. e tinham chegado a mim. Não me disseram muito. Passei horas em salas de interrogatório no New Hampshire a relatar os meus dias em Paris e Casablanca. Nomes, fotografias, moradas. Ao fim de duas semanas estava convencida de que tinha sido envolvida numa realidade em que todos tinham um papel preciso e determinado, incluindo eu mesma embora não o soubesse. H. teria estado envolvido na preparação de documentos e organização logística dos atentados. Usou o seu green card para poder entrar e sair dos EUA e as bases de Paris e Casablanca como células de encontro e despistagem de homens. Enquanto eu contava os dias da minha gravidez, ele contava aqueles que faltavam para o seu grande dia de violência e vingança. Assaltou-me uma sensação de culpa e vergonha que uma vez regressada a Nova Iorque, me impediram de sair de casa por quase um ano.

F. parece-me agora esgotada. Pergunto-lhe o que é feito dele.

Prenderam-no em Londres um ano depois. Esteve em Guantanamo e foi depois extraditado para o Egipto onde penso que está ainda preso. Falámos uma vez ao telefone. Não conseguiu dizer-me nada. Estivemos em silêncio a maior parte do tempo.

Olho para o relógio. Tenho de ir. Estou já no limite. Não sei como me despedir. Não sei sequer como me levantar daqui e partir.

Entro no avião com a cabeça a latejar. Na minha estupefacção F. aproveitara para me dar uma vigorosa palmada nas costas. Continua a ter uma força prodigiosa aquela miúda. Tínhamo-nos despedido com um sorriso e um beijo dos antigos. Confirmei. Vai a Paris participar numa conferência sobre restauro de arquitectura barroca. Não sei muito bem para que lhe serve semelhante matéria vivendo nos EUA, mas os americanos são assim, deliciosamente imprevisíveis. Depois de toda esta história voltou a estudar e vive agora em Filadélfia onde trabalha como curadora de um pequeno museu. Talvez o vá visitar numa das minhas próximas viagens a este lado. Agora limitar-me-ei a tomar uma pastilha para dormir.

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Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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20 respostas a Entretanto, em Casablanca…

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    O escrito pede mais. Pede continuação, que dele se faça um livro ou um guião cinematográfico. Gostei muito.

  2. catiavw diz:

    Really good Vasco. So real, so you, so….shocking and predictable, exciting and sad all at once…AND that’s art conservators for you!

  3. cc diz:

    Fez-me lembrar ” À procura de Sana” do Richard Zimler, o melhor dele para mim…recomendo-lhe a leitura. O sei texto também nos prende como o livro dele.
    ~CC~

  4. alberto perry diz:

    O titulo é traiçoeiro e por isso bem escolhido.
    Gostava de saber o que é que daqui é realmente verdadeiro !

  5. Primo Vasco, que alegria por tê-lo de volta. E logo com uma beleza de texto.

  6. Maria joao Bernardes diz:

    Vasco, continua, para quem como eu estou sempre em viagem e consequentemente a ler, seria um prazer ler um livro teu, dum colega de curso !:-)

  7. não ter esperança e querer ficar de esperanças podia bem ser um paradoxo. mas não é. e merece ser inventado e trazido. tenho a certeza que está no prelo. 🙂

    • vgrilo diz:

      Cara Olinda, não está no prelo mas é verdade que ficar de esperanças quando a esperança é pouca é coisa de gente com muita fibra.

  8. Tem uma força prodigiosa esta miúda. Grande narrador o que te leva a mão, Vasco.

  9. nanovp diz:

    Agarrado! Do principio ao fim, encarrilado na sucessão de pensamentos e imagens que a tua escrita acordou.

  10. Diogo Leote diz:

    Belo regresso, amigo Vasco. Real ou ficcionada, ou as duas coisas, a melhor história sobre o 11 de Setembro que já li. Um abraço.

  11. vgrilo diz:

    Viva Diogo, imaginemos só todas as outras que ficaram para sempre por contar.
    Forte abraço.

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