Eu e você no raio da TV!

MENTE-ME, CORAÇÃO…

Na sexta-feira fui internada no serviço de xxxx, do hospital de xxxx. Hospital tão público quanto público possa ser. Se equipararmos o serviço que prestam ao de um hotel, posso jurar-lhe, é de cinco estrelas e nem uma a menos: equipa fantástica. O médico e eu, dois camilianos convictos, cada a um a querer dar provas da sua fidelidade camela, perdão, camila – ganhou ele, é camiliano até ao filme de Oliveira, aquele que põe o Amor de Perdição a 33 lentas rotações. A equipa de enfermagem… ó que bebés mais profissionais! São miúdos, mas são gente grande. E meigos no trato com quem está nas mãos de Deus, gente de idade, ou doente quase demais para viver – isto não se aprende na escola. Não quero nada que imigrem para irem ser bons nos hospitais da Alemanha, de Inglaterra ou de sei lá de onde. E o resto do pessoal? Bons. Quero dizer: competentes e humanos ainda que longe de condições de trabalho ideais. São bons: dos cuidados médicos aos de enfermagem, desde a alimentação à limpeza, são bons. SNS forever! Zelar por doentes como os que aqui vejo, de outro modo quase todos indefesos, nem falo de moral nem de religião, é um privilégio da civilização, uma fronteira que nos defende da barbárie.

Isto para chegar onde? À televisão. Mais especificamente à televisão que se faz à tarde e vejo pelos olhos adentro porque nesta enfermaria para quatro, por razão de uma paciente que vê tudo, mesmo tudo, das oito e meia da manhã às onze meia da noite , a televisão é central. E não me refiro apenas à geografia. Não é uma presença. É uma omnipresença. Se é assim, também aquele é o país que somos. A cultura que temos. Ou seja: quem sou eu na cama do lado?

A bem da verdade, não sei se o que vi na tarde de sexta-feira se faz por hábito ou se foi, olhe, filho único.

Na tvi Fátima Lopes apresentava. Quem? O guardião do valor da nossa palavra e não é de Deus que falo. Não é quem. É o quê. Não, não é a ética nem a consciência. O guardião é o polígrafo. De convidado das polícias para assuntos criminais evoluiu para, pasme-se, as vidas conjugais – a pessoa utilizadora do tal instrumento queria atestar algo de natureza sexual que apaziguaria o objecto do seu amor.

Há já quanto tempo os detectives se dedicaram à perseguição das dúvidas amorosas para que se transformassem em malqueridas certezas? Nem sei. No entanto, parece-me muito razoável que as técnicas acompanhem os profissionais.

O que há na relação amorosa, mais ou menos conjugal, que nos empresta ao desatino? Sim, se os métodos são expectáveis, a loucura a que eles servem não é. Nunca foi. E manipula-nos. Basta-lhe a ponta do dedinho mais pequenino. Um sopro do nosso Iago interno – lá porque é nosso inquilino, isso não faz dele flor que se cheire – e zás, já a besta de olhos verdes roda e ruge. Lembra-se?

O, beware, my lord, of jealousy;
It is the green-eyed monster which doth mock
The meat it feeds on; that cuckold lives in bliss
Who, certain of his fate, loves not his wronger;
But, O, what damned minutes tells he o’er
Who dotes, yet doubts, suspects, yet strongly loves!

Talvez esteja a pensar que nada tem em comum com a participante do programa que se sujeitou ao polígrafo para tranquilizar o seu amor. Ou com quem se deixa consumir por tais sombras que se faz Otelo na praça pública. Talvez esteja enganado. Se calhar o que nos distingue daquele casal é o pouco circunstancial que permite que saibamos adormecer o monstro.

Mas para sermos completamente felizes, e vivermos em paz com o monstro acordado, devemos pedir ao amor que nos minta com toda a verdade como Nicholas Ray nos ensinou no diálogo mais amorável do cinema, aquele entre Vienna e Johnny. Porque Nicholas Ray era o cão amarelo, o Cão Ray, o Cão Rei, sabia que o amor é um cão do inferno.

Johnny: How many men have you forgotten?
Vienna: As many women as you’ve remembered.
Johnny: Don’t go away.
Vienna: I haven’t moved.
Johnny: Tell me something nice.
Vienna: Sure, what do you want to hear?
Johnny: Lie to me. Tell me all these years you’ve waited. Tell me.
Vienna: [without feeling] All those years I’ve waited.
Johnny: Tell me you’d a-died if I hadn’t come back.
Vienna: [without feeling] I woulda died if you hadn’t come back.
Johnny: Tell me you still love me like I love you.
Vienna: [without feeling] I still love you like you love me.
Johnny: [bitterly] Thanks. Thanks a lot.

cão amarelo, o Cão Ray, o Cão Rei: de uma crónica de João Bénard, cujo o título não sei de cor, e agora, azarucho, não tenho o livro à mão.

o amor é um cão do inferno: roubado, claro, é o título de um livro do tio Bukowsky.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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12 respostas a Eu e você no raio da TV!

  1. As suas melhoras, num Hospital por aí, tão público quanto público. SNS, forever.

  2. empurram-me as olindices de ternura a perguntar: o que tiveste? e estás bem?
    e depois, fiquei desapontada quando no início já salivava de contentamento com as camilices – achei que ia terminar a ler que é, afinal, por ser mesmo, no amor de damos que sabemos o que valemos em nossa consciência. ó.

  3. Pondo logo de lado o monstro dos olhos verdes, então a menina esteve doente, de hospital e tudo, e nós aqui sem sabermos de mada nem pudermos, por isso, lá chegar de ramalhete rubro a desejar boas melhoras?

    • EV diz:

      As coisas que faço para falar do sns e dos programas da tarde! E considero as flores recebidas. Merci, menina Ivone.

  4. Mas o que é que está para aí a fazer no hospital (perdão, hotel!)? Não me diga que é preguiça? Ou é um estudo para o seu próximo ensaio? E já vi que levou o Cão consigo. Agora chama-lhe Ray. Mas não lhe chamava só Cão?

    • EV diz:

      Bem que gostava de escrever outro, e até sei sobre o quê, por atacado como me convidou a fazer e fizemos, ou às prestações, perdão, em crónicas. Essa do Cão também estar no spa foi bem caçada, confesso.

  5. nanovp diz:

    Mas que belo hotel com cães e cinema…e não é que tem azão os médicos devem mentir como os actores, mas não são treinados ara isso…

    • Deviam dizer-nos a todos: você está fabulástico, e nós devíamos acreditar piamente. E pronto, da medicina passava-se à fé, cura total para tudo – bem, quase tudo, o país ainda está com prognóstico reservado!

  6. Mário diz:

    Já que está por aí, escolha o médico mais giro que por aí andar e faça aqueles olhinhos do gato das botas…assim…tristinhos…

    Reflexões sobre EV na TV:

    já pensou que pode ser uma das próximas convidadas da Dª Fátima? tem tudo, uma maleita (fundamental), é conhecida (se não é passa a ser), fotogénica (sósia da Audrey Hepburn)…sugiro que a sua família a abandone aí no hospital, aí sim, que bela convidada 🙂

    Se a coisa se arrasta ainda aparece na TV, nas14 horas de emissão do Natal dos Hospitais 🙂

    Fora as tonterias, as suas melhoras.

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