Juliette Sem Espírito

"A Vida de Outra Mulher", de Sylvie Testud

“A Vida de Outra Mulher”, de Sylvie Testud

Há meia-dúzia de actrizes que soltam o pitecantropo que há em mim.  A senhora Binoche é uma delas. Na linha de uma Geraldine Page ou de uma Genevieve Bujold, la Binoche exala uma saltitante jovialidade que me dá vontade de a paralisar com uma pistola taser, selar-lhe a boca com Super Cola Tudo e enviá-la num contentor para Mogadíscio. Quando devidamente dirigida – como em “Rendez-Vous” de André Téchiné, “Azul” de Kriszstof Kieslowski, “Cópia Certificada” de Abbas Kiarostami ou no recente “Camille Claudel 1915” de Bruno Dumont – revela-se uma intérprete dramática de respeito. Só não a ponham a fazer comédia. E a fingir que tem 25 anos (sim, 25 anos).

Essa é a idade de Marie (Binoche) quando conhece Paul (Mathieu Kassovitz), o filho de um milionário que renega uma carreira “respeitável” para se dedicar à banda-desenhada. Numa praia tão atraente como a Parede, Marie e Paul apaixonam-se. Há um problemazito: o par deita-se para fazer amor e, quando Marie acorda, Paul não está na cama e passaram-se quinze anos.

Com uma Binoche agora remotamente mais próxima da sua actual estética e biologia – tem 49 anos, interpreta uma moça de 41 e, sim, eu diria o mesmo se a matéria em questão envolvesse um Johnny Depp de 50 primaveras a passar por tolinho numa personagem pós-adolescente -, Marie, hoje uma executiva distante que lidera a empresa do pai de Paul, não se recorda da última década e meia. Acontece que a actriz Sylvie Testud, nesta estreia como guionista/realizadora, não apresenta uma ideia de cinema, concentrando-se de forma exclusiva nas interpretações. O tom do conjunto é a primeira baixa: sendo esta uma comédia dramática, não há um único momento de humor cuja inteligência nos faça sorrir (rir seria aspiração demasiado elevada). Sobra a premissa interessante – muito Washington Irving -, a Binoche a mimar um peluche chamado Jeannette e a gracejar como uma criança (é uma especialidade), enquanto enfarda o jantar num bateau-mouche, e uma banal intriga familiar. É pouco.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a Juliette Sem Espírito

  1. Já me fartei de rir com a primeira parte do primeiro parágrafo, é isso mesmo, mas depois ia perguntar-te pelo “Azul”, mas, claro, já lá estavas. Grande Pedro.

  2. 🙂 se aqui há riso e lá bocejo já não é mau.

  3. Queridas amigas Ivone e Olinda, obrigado pelo comentário.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    E lá me derreti com esta sua análise. Venham mais e mais.

  5. nanovp diz:

    Pois eu nem no Kiarostami, mas talvez seja maldade minha e o enervanço seja ao papel que lhe deram…

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