Mark Rothko

rothko

Rothko, de pé, entre quatro luas e um sol

Fevereiro de 1999, manhã de chuva, em Paris. A pequena fila à porta do Museu de Arte Moderna parecia ignorar o chuvisco. Cá fora, um silêncio de manhã cinzenta, ainda um vago aroma de pequeno almoço, delicado sinal do recomeço da vida depois da noite. Dia, noite, estranha sucessão de quatro luas e um sol.

Entrei e vi. Eram 70 telas. Caminhava-se entre Rothkos. Caminhava-se da luz para a sombra, das cores para quadros negríssimos, negros de terem já absorvido todas as cores. Caminhava-se da montanha para a caverna, da Natureza para o êxtase da experiência religiosa. No fim, a capela negra.

A pintura de Rothko está para além da pintura, talvez por começar antes da pintura. Olho, comparo e pergunto-me se a mão de Rothko que criou este Red Maroon Mural não terá sido a que, aristocrática e romana, pintara já os frescos de Boscoreale?

Red on Maroon Mural, 58

Mural

Fresco Boscotrecase

Frescos

E veja-se, digo de mim para mim, como é a quatro negros em vermelho que Rothko e Rembrandt se autoretratam.

MarkRothko-Four-Darks-in-Red-1958

Auto-retrato, julgo que de Rembrandt

autorretrato_rembrandt

este sim, é four darks in red

A história da filosofia, ensinaram-me à força e pancada de textos, é um longo comentário, de séculos, a uns diálogos de Platão. E a história da pintura?

Lembram-se das espadas de luz de “Star Wars”, a duas vezes trilogia de George Lucas? Séculos e séculos de espadas de luz a cruzar outras espadas de luz, séculos de uma força negra a inscrever-se em paredes de cavernas, nas cúpulas de capelas, em vitrais de violeta laranja preto vermelho e branco, nas gigantescas telas do nosso tempo – guerra de luz e estrelas, de cavernas e catedrais, talvez seja essa a história da pintura.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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13 respostas a Mark Rothko

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Claro que amaldiçoava. Já Lhe viste bem a sombra …

      • Sendo o homem mortal Deus não é necessário para nada, aquela doce ilusão dos religiosos, Que a vida eterna, Que 77 virgens, Que um cargo de primeiro-ministro de Israel é muito vaga, É como encontrar aquela loiraça ou morenaça cheia de pelinhos (metafóricos, claro) na discoteca e ela dizer Ok, depois ligo-te.

        • Claro que Deus não é preciso para nada. Um martelo é preciso para pregar um preguito, um afia para aguçar o lápis e por aí adiante, enquanto Deus é de facto de uma completa inutilidade. Essa obsessiva e preseverante intulidade é que nos assombra.
          ps – a loira sempre te ligou?

  1. E os diálogos do Pato Fu

  2. um longo olhar, de séculos, de cor e de formas, de luz e escuridão, parece-me bem.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Nada conheço de Rothko. Vou indagar.

  4. Muito bem caçado este rouge todo, perdão, este Rothko.

  5. nanovp diz:

    Sublime, como ele ( o Rothko ), achava que seria o objectivo final da pintura…sem duvida muito perto de Pompeia e dos clássicos…

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