Mermaid Avenue

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Este era o nome da rua onde viveu, em Connie Island, Brooklin, Woody Guthrie, com a sua mulher e filhos, nos anos a seguir à segunda guerra mundial. Foram anos de uma criatividade fulgurante para o musico e escritor de canções, tão habituado ao  nomadismo, à necessidade de percorrer a terra na luta pela vida. Terá sentido o prazer de poder ficar por uns tempos no mesmo lugar, rodeado pela família. Woody escreveu centenas de letras para canções neste período, uma grande maioria nunca o chegou a ser, palavras e frases solitárias, poéticas, sem melodia ainda, perdidas em folhas rabiscadas ou dactilografadas.  Woody tinha feito o percurso “Steinbeckiano” de tantos outros “okies”, de uma Oklahoma devastada pela grande depressão para a Califórnia imaginada celestial, qual “El Dorado”  do Oeste, transformada em tantos casos num  terrível pesadelo. Nunca deixou de se pronunciar sobre a situação política e social que via à sua volta, como é exemplificado no famoso  autocolante que colava em cada guitarra “This Machine Kills Fascists”. Mas Woody era sobretudo um escritor de canções, melodia e texto, traduzindo os seus sonhos e pesadelos na arte que dominava.

A sua influência foi enorme, Dylan não teria existido sem que Woody preparasse o terreno, o grande Richie Havens assumiu várias vezes a incontornável herança do cantor e escritor branco, e tantos outros que nas gerações seguintes continuaram e continuam a acreditar no importante papel social e cultural da canção popular.

Mermaid Avenue é também o nome de dois álbuns gravados pela banda Wilco, com Billy Bragg como convidado, ambos exemplos do melhor “folk” que se continua a fazer por esse mundo fora. A tarefa, desde logo peculiar, foi a de criarem melodias para as palavras escritas por Woody, e que tinham ficado expectantes de virem a ser canções. Billy Bragg refere no texto que acompanha o primeiro CD que ” This is not a tribute álbum. This is a collaboration between Woody Guthrie and a new generation of songwriters.”

 As letras das músicas são tão variadas como as melodias, o resultado é um “folk” actual, dinâmico, onde a letra e a música se juntam numa combinação perfeita. Os textos variam entre baladas de amor, “At my widow sad and lonely “, a temas de crítica social como “Jesus Christ for president“. A música acaba por ser entendida como se tivesse sido imaginada assim logo de inicio.

Para quem ainda julga que o “folk” é uma actividade menor de uma cambada de “cowboys” de chapéu e botas bicudas, mulheres de peitos desmedidamente grandes, e um sotaque exagerado de “mid-west”, é tempo de  pelo menos arriscarem um pouco, o pouco que se exige para ouvir Woody na música de Wikco e Billy Bragg. E depois digam se não valeu a pena.

One By One

One by one the teardrops fall as I write you
One by one my words come falling on the page
One by one my dreams are fading in the twilight
One by one my schemes are fading fast away

One by one the flowers fading in my garden
One by one the leaves are falling from the trees
One by one my hopes are vanished in the clouds clear
One by one like snowflakes melting in the breeze

One by one my hair is turning gray
One by one my dreams are fading fast away
One by one I read your letters over
One by one I lay them all away

One by one the days are slipping up behind you
One by one the sweetest days of life go by
One by one the moments stealing out behind you
One by one she’ll come and find not you or I

One by one I hear the soft words that you whispered
One by one I feel your kisses soft and sweet
One by one I hope you’ll say the words to marry
One by one to one by one forever be

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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6 respostas a Mermaid Avenue

  1. Que bela avenida abriste aqui, Bernardo.

  2. ainda que não veja nada de mal em chapéus, botas bicudas, mamas grandes e bocas ao lado, parece-me muito bem vires dar uma pincelada contra o elitismo na música. e com bom gosto. 🙂

  3. EV diz:

    Fiquei com curiosidade, Bernardo! mas para pena minha esta ligação é fracota e não me deixa ouvir o video. Fica para o futuro. Próximo.

    • nanovp diz:

      Vale a pena Eugénia, embora goste mais de Wilco, estes dois álbuns ( porra agora diz-se CDs) são muito bons, graças sem duvida aos textos de Woddy.

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