O fabuloso cú de Lucrécia

Jacob Jordaens, Candaules, Rei da Lídia, Mostra a Sua Mulher ao Primeiro-Ministro Giges (1648), óleo sobre tela, Museu Nacional de Estocolmo

Jacob Jordaens, Candaules, Rei da Lídia, Mostra a Sua Mulher ao Primeiro-Ministro Giges (1648), óleo sobre tela, Museu Nacional de Estocolmo

 “Digo e repito: garupa. Não traseiro, nem cú, nem nádegas, nem assento, mas sim garupa. Porque quando a cavalgo a sensação que me embarga é essa: a de estar sobre uma égua musculada e aveludada, puro nervo e docilidade. É uma garupa dura e talvez tão enorme como dizem as lendas que sobre ela correm pelo reino, inflamando a fantasia dos meus súbditos. (…) É dura ao tato e doce aos lábios; vasta ao abraço e cálida nas noites frias, uma almofada terna para repousar a cabeça e um manancial de prazeres na hora do assalto amoroso. Penetrá-la não é fácil; antes doloroso, a princípio, e até heróico pela resistência que essas carnes rosadas opõem ao ataque viril. Fazem falta uma vontade tenaz e uma verga profunda e perseverante, que não se arredam perante nada nem ninguém, como as minhas”.

Mario Vargas Llosa, em Elogio da Madrasta

Pela imagem acima reproduzida, custa a acreditar que o volumoso cú de Lucrécia tenha merecido a homenagem que Mário Vargas Llosa lhe rendeu nas páginas – carregadas do mais fino e culto erotismo que há memória – do seu depravadíssimo Elogio da Madrasta. No entanto, a julgar pelo sagaz olho erótico de Vargas Llosa, subiu tão alta a fama do traseiro da mulher de Candaules, rei da Lídia, que há quem jure já ter ouvido dizer a alguns historiadores que, num futuro mais ou menos distante, pouco mais sobrará da história desse pequeno país – cujo território se situava no coração do que é actualmente a Turquia – do que as lendas e fantasias que o mesmo alimentou entre os seus súbditos. Certo e sabido é que era grande o orgulho do rei Candaules na garupa de Lucrécia. A tal ponto que os feitos que a dita lhe inspiravam entre lençóis o faziam mais vaidoso do que as derrotas que infligia às tropas invasoras. E ai de quem não estivesse à altura da glória do traseiro de Lucrécia, a quem Candaules oferecia todos os caprichos, até a verga de Atlas, o mais bem dotado dos seus escravos, que, tendo a infelicidade (talvez porque intimidado pela presença do rei) de não conseguir montar a rainha, acabou sem cabeça.  Ao que dizem, para a fama do cú de Lucrécia contribuiu também a ousadia de Giges, fiel ministro de Candaules que, numa noite de embriaguez partilhada com o rei, se atreveu a louvar o traseiro de uma sua escrava egípcia, qualificando-o (se Vargas Llosa não tiver exagerado na descrição) como o “mais bonito que a Providência jamais concedeu a uma mulher”. Candaules, perante o desabafo do seu ministro, não resistiu a propor-lhe um irrecusável desafio: que se comparassem então as nádegas de uma e de outra. O rei pôde assim constatar, na verdade, quão notável era o cú da escrava egípcia de Giges, considerando mesmo um milagre que um súbdito pudesse aceder a tamanho paraíso de carnes. Mas o que a História, a lenda ou a literatura nos contam é, claro está, que Lucrécia ficou a ganhar na comparação. “Vi-o e é tão extraordinário que não posso acreditar. Vi-o e ainda me parece que só sonhei”, disse Giges depois de introduzido nos aposentos privados da rainha, onde teve o privilégio de assistir à magnificência da célebre garupa e, mais do que isso, a uma das afamadas montarias do rei (tudo isto bem escondidinho, sem que a rainha soubesse, ou, se quiserem ter uma versão mais apimentada da coisa, fingindo que de nada sabia, tal foi a intensidade da noite de prazer).  

Face aos antecedentes da decapitação de Atlas, Giges não hesitou em prometer ao rei, para todo o sempre, segredo sobre o que acabara de ver. Mas aqui entra a fronteira, sempre tão ténue, entre a História e a lenda, entre a realidade e a fantasia. Como terá chegado até aos nossos dias o relato do esplendor do traseiro de Lucrécia? Rei é rei. A um monarca não fica bem gabar-se aos súbditos das façanhas sexuais permitidas pelo fabuloso cú de sua mulher. Enterrado Atlas, resta Giges. Parece que o ministro não resistiu a contar a alguns o que viu. Sorte a dele. Viu um cú como não existia outro, deu com a língua nos dentes e ainda manteve a cabeça no lugar.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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19 respostas a O fabuloso cú de Lucrécia

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Uma história e tanto! Muito bem contada, Diogo. A imagem da abundância de carnes traseiras faz-me pensar a Lucrécia como gigantesco tambor almofadado.

    • Diogo Leote diz:

      E será que a garupa de Lucrécia, quando montada, dava música de tambor? Não sei se a lenda chega tão longe.

  2. antonio diz:

    Maravilhoso , como se diz em Espanha :”chapeau”

    • Diogo Leote diz:

      Ainda bem que gostou, caro António. Já imagino as mentes mais perversas a levarem à letra o qualificativo “chapeau” aplicado ao traseiro de Lucrécia.

  3. Pedro Bidarra diz:

    Que belo texto mas, apesar de tudo, gosto mais do meu; do cú, não do texto.
    http://www.escreveretriste.com/2013/05/belo-cu/

    • Diogo Leote diz:

      Que terrível falta de atenção minha não me ter lembrado deste teu lendário kallypigos (ainda para mais, dado à estampa por ti a 21 de Maio, dia que me viu nascer). Mas, mais distraído do que eu, andaram o Jordaens e o Vargas Llosa, que preteriram o teu cú – sem dúvida o mais belo do mundo – a favor das carnes pendidas da Lucrécia.

  4. Luís Paiva diz:

    Por que é que cu (mesmo não sendo assento) tem acento?

    • Diogo Leote diz:

      Boa pergunta, caro Luís, a que não sei responder. Provavelmente, o acento está lá para isso mesmo: para dar assento ou companhia ao cú. E, neste caso, seria um crime que o belo cú não tivesse companhia.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Sem querer estar a desconversar, a verdade é que já não será a primeira vez que cu leva ´ (acento, quero eu dizer).

    • Diogo Leote diz:

      Cá para mim, e não querendo também desconversar, o acento grave deve estar a morrer de inveja do agudo.

  6. Maria Alexandra diz:

    Magnífico texto.

    • Diogo Leote diz:

      Muito obrigado, Maria Alexandra. Ainda bem que gostou. Mas sabe, com um traseiro como este e um mestre como Vargas Llosa, a inspiração brota espontaneamente.

  7. Olinda diz:

    histórias de dianteira de riso até o cu fazer bico, ah, que espanto! 🙂

  8. nanovp diz:

    Delícias reservadas a quem olha o mundo por trás….

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