Para desgosto da Tia Escrever, “Pelos e Pelagens”

Yul Brynner by Alessandro Pautasso (Pop Art)

Yul Brynner by Alessandro Pautasso (Pop Art)

O Estado, essa nublosa entidade que serve para tudo e para nada, demorou décadas a perceber o básico: pertence-lhe o prévio conhecimento dos montantes provindos dos rendimentos dos cidadãos. Assim não foi. Andou mal. Pôs-se a jeito. Esteve e está a pedi-las. Deu no que deu porque neste e noutros particulares o desleixo do Estado legitimou embustes por razão simples: não é dele o desembolso, o mau viver, mas dos pagantes usuais. Agora, arruinado, gasto e trôpego, procura tratamento que o remoce. Por enquanto, é botox de empréstimo, anorexia à custa dos trabalhadores que o servem, dos reformados, dos mais desfavorecidos na escada social atualmente resumida a par de degraus – ricos e pobres. Concretizando a brutal lipoaspiração das já secas carnes dos funcionários públicos, a credibilidade que lhe seria devida fosse entidade de bem somente não bate no fundo da Fossa das Marianas, em dimensão vertical envergonha o Everest, porque ir a pior não está descartado.

Raiz quiçá tão profunda como a da austeridade por ora vivida tem a questão pilosa, masculina em particular. De facto, a relevância do problema é fácil de aceitar: interditos aos machos humanos lacinhos, ganchos, travessões, totós e bandós, o cabelo é para eles mais que moldura do rosto, é montra publicitária – “olha para mim tão viril e cabeludo!” Daí a julgarem, vã mania!, que o engodo dos pelos é essencial ao sucesso, ao ar fresco e jovem, à respeitabilidade, ao engate, à performance sexual. E vigiam cada cabelo que ao acordar fica na almofada, na banheira no pós-duche, ou que a escova arrecada. Cabelo provocadoramente caído no lavatório, merece epitáfio: “Ó desgraçado, seu reles, mal-agradecido por tanta ampola e massagem. Fica sabendo: cabelos há muitos; eras somente mais um, ó palerma!” E é. E fica no lavatório. E dali não o tira quem, por cair, o vilipendiou.

Do cabelo deles, mais do que a abundância ou rarefação, observo o arrumo. Não me escapa o estilo Yul Brynner (tipo fuga para a frente de quem ao medo da careca julga dizer não), a criativa e irreal pelagem de jogador da bola (a par das respetivas pernas e rabos, constitui cartão de visita), o estilo «manga-de-alpaca» convicto, o de hipotecado diretor de PME, administrador de multinacional ou político. Nenhum tão revelador como o do peregrino que na noite erótica de Lisboa, a noite dos mil olhos, se compraz.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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6 respostas a Para desgosto da Tia Escrever, “Pelos e Pelagens”

  1. ai que pilosa tão bem amanhadinha! andaste lá de pinça, carago.:-)

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Que maravilha! Irá desculpar-me o copy, mas é para já. Obrigada.

  3. Depois disto, Maria, estou a pensar rapar à Yul B.

  4. António Barreto* diz:

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