Porque é Assim

Porque no meio do caminho, que pensavas ser conhecido e decalcado, alguém te tocou no ombro, descaído de quem leva a vida por certeza, e no ar ficou um perfume a saber a mel, um raspão que tocou a alma num arrepio instantâneo. Porque no céu coberto de nuvens espessas, uma nesga de azul arrastou amarras, e abriu-se para todos verem a luz que atravessa montanhas e rochedos. Porque afinal nada foi como tu planeaste, a vida a escorregar e a deslizar para os escombros de um amor que se recusa a morrer. Porque o livro já lido e relido, papel gasto nas mãos que acariciavam a escrita, pareceu novo, inédito, nas lágrimas que fez escorrer pela face lisa. Porque já tinhas esquecido o amor que se deita todos os dias ao teu lado, numa rotina que abala a surpresa, acinzentando a luz que ainda resistente se torna dourada, enquanto percebes que afinal nunca a tinhas visto assim. À luz e a ela. Porque tudo fica mais rico quando te deixas levar pela brisa do vento que acariciou as paredes anciãs das casas de pedra, velhas memórias de que tudo será eterno se deixarmos o espirito ser livre. Porque sim. Porque não sou eu que mando na vida, mas sou eu que a posso esmagar com a incapacidade de olhar a areia da estrada de olhos abertos e cheios de luz, as árvores que renascem depois da morte anunciada, os pássaros que voam sem saberem de que lado sopra o vento. Porque sim, porque tenho medo de aceitar o descontrolo verdadeiramente livre de um universo que se abre sempre, inconcebível, ao fim de uma longa caminhada.

Porque sim, e ainda bem.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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10 respostas a Porque é Assim

  1. riVta diz:

    já tinha pensado por onde andavas
    em boa companhia já percebi
    😀

  2. Porque sim. Não há melhor razão.

  3. Maria João Bernardes diz:

    E ainda bem que assím é!

  4. vgrilo diz:

    Lindíssimo, Bernardo. Fica e ama bem.

  5. E há lá melhor razão, Bernardo?

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