Soltavam-se aromas com lirismos de libertação popular

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Pondo os olhos no cinema, diria que o episódio foi mais “Grande Farra” do que “Festa de Babette”.

De Luanda, uma fúnebre ponte aérea roubara-nos as famílias. Mas nós, Che Guevaras de dois cavalos, ficámos. Éramos meia dúzia de rapazes e raparigas de 20 anos e exibíamos a nossa branca alegria revolucionária a uns miúdos negros a quem dávamos aulas nos liceus. “Os últimos hippies”, diziam eles. Do ventre de Luanda irrompia, em vagas, uma inimaginada africanidade. Nós, uma fé anarco-maoista de Chu-En-lai que Durão Barroso nem em sonhos, éramos tão independentes como a independência de Angola conquistada a órgãos de Estaline.

O fim de ano de 1975, o primeiro fim de ano de uma pátria angolana pedia festa. E antes de dançar queríamos jantar. É verdade que os tempos andavam “fracativos” de carne. Não havia. Mas tínhamos os nossos esquemas e a carne apareceu. Chispe e orelha, sal grosso em cima. Febra também, bochechas e muito feijão.

Revolucionários, recusámos a colaboração das meninas. Não sabíamos cozinhar? A memória da praxis materna bastaria. Refogámos, cozemos, um pandemónio de Longa Marcha numa cozinha de Angola. Soltavam-se aromas com lirismos de libertação popular. Emancipámos a cebola, picámos dentes de alho guerrilheiros. Até que, lição leninista, sobreveio a ditadura: provámos e o sal mostrou uma intransigência proletária. Brutal, tomara o poder no tacho.

Vencêramos a carência de carne, mas o sal era agora a ameaçadora ponta de espingarda apontada ao sensível palato. A feijoada convertera-se numa incomestível luta de classes. Esquecêramo-nos de limpar da carne a infiltração estalinista do sal grosso.

Propus a solução conciliar de mamã católica: meter na feijoada uma batata que redimisse a ideológica raiva de tanto sal. Descascámos uma, cinco batatas e o imperialismo salino persistiu, inabalável. Ensaiámos o revisionismo social-democrata, cortando laranjas em quartos, o que só reforçou o esquerdismo infantil e doentio do cloreto de sódio.

Era preciso salvar a carne. Como sabem, a dialéctica é o único caminho filosófico para a utopia. De acordo com as leis científicas do venerável Marx, só havia uma solução: fundir os contrários. Ai é só sal? Então, toma açúcar! Atirámos meio quilo de açúcar para a panela contra-revolucionária e, obscurantismo inconfessável, rezámos para que triunfasse um sabor de lamber os lábios.

Ainda hoje não sei se foi a lei do falecido Karl, se um Papa Francisco avant la lettre ouviu as nossas preces. Sei que, nessa última noite de 75, de barriga cheia, se dançou, ventre no ventre, em inconfessáveis slows, o nascimento de uma Pátria que amo, apesar de, já naquela cozinha, saber que não era a minha. A carne talvez fosse fraca, o sal seria um veneno, mas nunca o molho pareceu tão bom.

 Publicado, com muito gosto e o raio duma nostágica emoção, no Expresso, sábado, dia 7 de Setembro

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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22 respostas a Soltavam-se aromas com lirismos de libertação popular

  1. extasiada com a alquimia maravilhosa em processo. e, depois, com o resultado. 🙂

  2. Pedro Bidarra diz:

    Uma mixórdia revolucionária. Porco, feijão, batata, sal a mais e acuçar a mais; e depois festarola. Senão parece o bloco

  3. Crescido, sempre podes tocar numa banda:

  4. celeste martins diz:

    Com muito ou pouco sal, com ou sem açúcar…soube-me a pouco !!! Estava uma delícia !!!!!

  5. Fatima MP diz:

    Que beleza de texto. Consegui ver tudinho …
    E como você escreve bem! E super divertido. Tudo menos triste …

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Fátima, é um comentário ou uma aparição? A sério, obrigado.

      • Fatima MP diz:

        Diga-me você. Se teve uma revelação … se o sol se toldou … se viu a luz, foi aparição. Caso contrário, foi comentário mesmo … sorry.

  6. Este é para o livro de crónicas!

  7. Lingrinhas diz:

    Um texto belíssimo de um “camundongo”; imagino que os slows foram dançados sob um céu de “tracejantes” e do matraquear das Kalasch…

  8. Lingrinhas diz:

    Raio, esqueci-me das Cucas…

  9. nanovp diz:

    Gosto, emoção, chispe e orelhas, e sal, muito sal e muita batata….

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