As Cartas de Joyce a Nora

 

querida Nora

James Joyce é o escritor que escuso de qualificar. Mais conhecido do que lido, epígono de um modernismo que, em “Ulisses”, está para a literatura como a teoria da relatividade para a física, escreveu também “Finnegan’s Wake”, ficção diluviana, naufrágio do sentido, da sintaxe e da ortografia, a que todos os escritores, romancistas e poetas posteriores – e já vai um século deles – tentam sobreviver como se fossem o eleito e virtuoso Noé.

O irlandês Joyce amou Nora, uma rapariga do condado de Galway, com poucas letras, rosto redondo e bonito, boca amável e dedos ágeis. Cansado de uma Irlanda que não o reconhecia como escritor e, por isso, não amava, fugiu para Trieste, em 1904, e levou com ele a amada. Em 1909, visita breve, Joyce regressou à Irlanda para mostrar o primeiro filho à família, deixando Nora em Itália.

Os irlandeses tinham, em 1904, uma ideia da sexualidade parecida com a dos portugueses nos anos 70, mais coisa, menos coisa. Um velho amigo disse então a Joyce que tinha andado com Nora na mesma altura em que o namoro dos dois começara. Era uma noite um, uma noite outro, louvou-se o amigo, aqui para nós um filho da puta de todo o tamanho. Joyce acabara de chegar a Dublin e foi como se uma locomotiva a vapor lhe passasse por cima.

Ter-te-á alguém fodido antes de chegares a mim?” é um dos mimos da missiva que, já cinco anos de vida em comum, inaugura o conjunto das mais sulfúricas cartas que um amante em turbulência escreveu à mulher amada. Os ciúmes parecem Erínias a rasgar Joyce e ele vitimiza-se, com algum pendor ostentatório,  alardeando o peso de um valente par de cornos que nem o mouro Otelo teria suportado.

Ainda Nora não tivera tempo de lhe responder, fosse o que fosse que ela tivesse a dizer-lhe, e uma segunda carta pega fogo à primeira. Alguém o convencera – outro amigo – que a alegada traição de Nora era uma colossal mentira de um tipo inchado (mais olhos do que barriga) pela desmedida vaidade sexual irlandesa. Cosgrave, esse malévolo amigo de mãos apalpantes, mal andara com Nora, talvez uma carícia furtiva, se calhar nem sequer um beijo, mas tudo antes de Joyce, como a Joyce sempre Nora tinha dito.

Nessa segunda carta, já os ciúmes de Joyce são líricos, ciúmes de todo o passado dela, de que alguém a tenha olhado, desejado, sorrido. Pequeninos ciúmes, deliciosos ciúmes, que mais e depressa expandem o desejo e a promessa de lhe assaltar o corpo logo que se reencontrem: “Vejo-te numa centena de posições, grotesca, impudica, virginal, langorosa.” E, a seguir, com toda a latitude, aponta-lhe para a longitude: “Há um sítio, Nora, um estranho sítio, Nora, onde eu gostaria agora de beijar-te. Que não é nos lábios, sabes qual é?

A meio de Setembro desse ano, Joyce voltou aos braços da amada. Mas, mês e meio depois, já estava de novo em Dublin, com uns investidores de Trieste, para tentar criar e montar um negócio inovador: uma sala de cinema. De 18 de Outubro de 1909 até final desse ano, Joyce entretém com a amada um comércio epistolar que uns acharão sórdido e a mim me parece sublime.

Nora Joyce

Nora, boca amável, dedos ágeis

Só se conhecem as cartas de Joyce, mas na opulência erótica, pornográfica, dessas cartas de Dublin, adivinham-se as promessas das cartas dela. A um presumível “fuck me” de Nora, a essa mulher que ele chamava “minha bela flor silvestre das sebes! Minha flor azul-escura que a chuva molhou”, Joyce promete fodê-la “por detrás como um porco cavalga a porca” adivinhando que depois “… a minha língua te lambe, ávida, a cona vermelha e farta”.

Em Dezembro, o tesão joycenano parece uma igreja barroca, tanto é o luxo e os ademanes. Obriga-se a voltar aos ciúmes e recorda-lhe aquele tipo que antes dele a apalpou e quer saber se ele “chegou ao ponto de te tocar no pequeno grelo que tens no fundo da cona… Acariciou-te o tempo suficiente para te vires?” Pretexto para lhe dar um amor ainda mais selvagem e de “meter na abertura das cuecas o enrugado obsceno pau e toma, toma, toma lá, nesse buraquinho adorado, entre frescas e rechonchudas nádegas…

Joyce invade o que invade e aceita o movimento das marés. As cartas seguintes oferecem à literatura do século XX uma epifania coprofílica. Num arrebatamento poético, Joyce recorda e canta de Nora os mais sinfónicos momentos: “É maravilhoso foder uma mulher que se peida, que põe cá fora um a cada bombada.” E, por temer que a altiva língua portuguesa não atine com baixos fundos, é já em inglês que Joyce lembra a Nora como ela o provocou com “obscene touches and noises, and even to do in my presence the most shameful and filthy act of the body. You remember the day you pulled up your clothes and let me lie under you looking up at you while you did it? Then you were ashamed even to meet my eyes.” Para logo lhe voltar a dizer, em arrebatado português, “És minha, querida, és minha. Amo-te.

Em Dublin de 1909, Dezembro chegava ao fim. Veio o Natal e a natividade limpou a escatologia. A carta seguinte de Joyce podia tê-la assinado um António Feliciano de Castilho, uma Jane Austen: “Tenta minha bem-amada proteger-me das tempestades do mundo.

Há nove anos, uma destas cartas vendeu-se por mais de 400 mil euros num leilão da Sotheby’s, ainda que a melhor informação que tenho é estarem todas, desde 1957, na Universidade de Cornell, em Nova Iorque. Nenhum português precisa de pagar 400 mil euros para as ler. Uma editora, a Hiena, publicou-as, em 1994, num livrinho de 100 páginas intitulado “Querida Nora!”, que Carlos Valente traduziu e apresentou. Agora atrevam-se a aparecer no próximo jantar do “Escrever é Triste” sem as terem lido!

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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14 respostas a As Cartas de Joyce a Nora

  1. foder amor só pode ser sublime – porque o amor é, nu e cru, pornográfico.

  2. Sempre pensei que ele pegava de empurrão (embora ter namorada não signifique shit)

  3. celeste martins diz:

    Quando se ama, nada, que a intimidade permite , é pornográfico !!! E, ainda mais, dá cor à vida !!!

  4. Difícil é acreditar que, com tantas liberdades, ninguém o tenha feito com Nora antes de Joyce. Bom tema para discutir no próximo jantar.

  5. Manuel Fonseca: tenho esse livro, outra edição, outro título: Cartas a Nora, da Relógio de Água. Mas posso jurar que a tradução é diferente e completa. Mesmo despojada de vegetalismos na carta de 3 de Dezembro que cita. Ele adorava-a!

    • Menina Eugénia, também tenho essa edição que tem as cartas todas, veja lá a coincidência. Mas não sei porquê gosto deste livrinho que se concentra só sobre as cartas de Dublin para Trieste. Ainda assim se for lá ver a carta de 2 de Dezembro de 1909, encontra o vegetalíssimo floreado que diz que lhe falta. Tem razão: Joyce amava Nora. Não sabemos se Nora amava Joyce.

  6. Bruto da Silva diz:

    amem-se (tão bem) uns zaos zoutros: pare-se promis cu idade 😉

    “Untalented and noncreative people,” writes Gentry, “are able to build lasting careers from what one might call the Talented Dead.” Gentry’s judgment may seem harsh, but the questions he asks are incisive and should give pause to scholars (and bloggers) who make their livings combing through the personal effects of dead artists, and to everyone who takes a special interest, prurient or otherwise, in such artifacts. Just what is it we hope to find in artists’ personal letters that we can’t find in their public work? I’m not sure I have an answer to that question, especially in reference to James Joyce’s “dirty letters” to his wife and chief muse, Nora.

    Does anyone have the right to read things that were clearly meant only for two specific people…? Now that they have been exposed to the world’s gaze, albeit in a fairly limited fashion, does anybody except these two (who are dead) have any right to make objections about or exercise control over the manner in which these private documents and records of intimacy are used?

    Nora hoped to keep Joyce away from courtesans by feeding his fantasies in writing, and Joyce needed to woo Nora again—she had threatened to leave him for his lack of financial support. In the letters, they remind each other of their first date on June 16, 1904 (subsequently memorialized as “Bloomsday,” the date on which all of Ulysses is set).

  7. nanovp diz:

    Nada pornográfico, é só amor Irlandês, com um toque de ciume….E parece que já não se escrevem cartas, quanto mais de amor….

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