Cozido à portuguesa, meus ricos filhos, não é cultura portuguesa

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA – ii
A Ana Malhoa é a Miley Cyrus

Comentei: gostava de escrever sobre a Miley Cyrus. Aquela questão nos MTV Awards. Disseram-me: não vale a pena, não se passou cá, as pessoas não se interessam por causa da distância, sentem que não lhes diz respeito. Eles logo escreverão. É outro mundo, outra língua – e nós não temos estrelas globais na cultura pop, urbana. A erudição é um nicho, não entra nesta conversa. E tu escreves em português.

Tudo quanto me foi dito é verdade e sensato. E é mentira insensata. E quanto ao português, é a minha língua. Não quero escrever noutra – o que não falta são tradutores de primeira água se alguém em vez de ler os clássicos que deveria, fizer gosto em ler o que escrevo.

Porque é insensatez e mentira? Porque não há cultura portuguesa. Tenha calma. Explico-me. Nunca houve – se houvesse só nós a entendíamos pela sua especificidade. A nossa maior qualidade é essa, a da plasticidade integradora, seja ela navegante, imigrante ou mulata, a nossa vocação é o outro, o mais além é sempre melhor mesmo quando não. Todo o nosso provincianismo tem raiz cosmopolita. Hei-de voltar a isto.

Aponto apenas dois dos nossos grandes e mais conhecidos nomes da dita cultura portuguesa que sabiam não haver uma cultura portuguesa e agiram dentro desse conhecimento: Eça e Pessoa. Na mais alta pintura contemporânea passa-se o mesmo: Lucien Freud e Paula Rego falam a mesma língua. E não é a do cenário inglês ou português em que o pensamento, respectivamente, se lhes formou e a despeito da nacionalidade de Lucien Freud esmagar a visibilidade de Paula Rego apenas e só por nascimento.

Não há cultura portuguesa. Há a cultura ocidental, onde nos situamos, fortemente permeada pelo oriente de séculos e cujos traços ora foram integrados ora combatidos conforme os interesses comerciais. É preciso olhar para a cultura e vê-la como ela é na sua face perene tanto quanto nas linhas de rosto mais sujeitas aos efeitos do tempo.

A cultura pop é o jornal do dia. As notícias de hoje, o nada de amanhã. Lixo. Mas nesse fio contínuo das horas impressas está a história das ideias, dos costumes, da política. E também, aproximando muito o olhar, ao microscópio de uma notícia, pode estar um romance: Capote sabia isto. Ou afastando tanto quanto possível o olhar do minuto que agora passa, e impondo a maior distância para uma visão global, podem estar mil contos a reflectir a humanidade: Borges sabia isto.

Creio que temos estrelas no firmamento. Portuguesas de pai e mãe e não são nossas. Na cultura urbana, na literatura, na pintura. São ocidentais. Não temos a indústria musical norte americana, de facto, ou então a Miley Cyrus seria a Ana Malhoa cuja história, salvaguardando entre outras diferenças de maior peso, geracional e de costumes, tem pontos de contacto significativos.

Fundamental é como tratamos este tecido cultural comum. Pobremente. Tratamo-lo pobremente. Demonstro.

Se o autor/pintor/músico é estrangeiro, espera-se pela crítica do respectivo país de origem para depois espelhar à náusea os conteúdos produzidos. Se é português, para existir na crítica, tem de fazer parte de um círculo mágico, social ou maçónico ou jantante, tanto faz, em que A projecta B que projecta A. Ou isso, ou ir para fora para ser de dentro como qualquer estrangeiro na sempre actual tradição estrangeirada.

Se está a pensar: então porque não escreve sobre algo ou alguém, a partir das suas próprias referências? Alguém nosso em sentido restrito ou aberto? Bem, tenho-o feito. Mais recentemente sobre Alexandre Farto aqui, por exemplo. E sobre outros e outras questões também.

Tenho muito mais para dizer. Se quiser ouvir, vá passando pelas páginas onde escrevo. Sabe, pode parecer insignificante, mas arrependo-me mesmo de não ter escrito sobre a Miley Cyrus.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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10 respostas a Cozido à portuguesa, meus ricos filhos, não é cultura portuguesa

  1. riVta diz:

    posso pedir um disco? …ai desculpe um post. Posso?
    enquanto espero resposta segue o nº1 de vendas nacional – no TOP !
    é mesmo um pote no arco de Ísis … ai desculpe Íris

  2. Há excepções, mas o que se escreveu sobre a paroquial cultura portuguesa, paroquial ficou. Figuras como Sena, Eduardo Lourenço, Joaquim Manuel Magalhães, ou Eduardo Prado Coelho conseguiram escrever de forma sistemática e aproximar poesia e romance português dos padrões universais. São excepções nessa ferida da nossa crítica que tão bem descreve acima.

    Agora lá vai ter de cumprir a promessa… Cumpra, só temos a ganhar.

  3. GRocha diz:

    Isso de “obedecer” aos caprichos dos outros em vez de aos seus está mal 🙂
    Se lhe apetece escrever sobre a Miley , escreva, embora sinceramente não sei o que há para escrever sobre ela, a não ser que é uma ordinária 🙂 desculpe 🙂 não resisti a obedecer aos meus caprichos 🙂

    Quanto à cultura musical deste País ui ui aí tem muito material sobre o qual se pode debruçar 🙂 e a Sôdona Rita já deu um “toque” 🙂 e a este tema digo “porra” muitas vezes 😉 é triste ver ao que chegou a nossa cultura sobretudo a musical… só prova que qualquer um, desde que com uma máquina de marketing por trás vende!

  4. Verdade, verdadinha, sem dúvida.

  5. nanovp diz:

    “Há que aguentar meninos” terá dito Manuel de Oliveira sobre a recente (?) crise do financiamento do cinema português…

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