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"Fuga", de Jeff Nichols

“Fuga”, de Jeff Nichols

Não há hoje ninguém que trabalhe a paisagem rural dos EUA como Jeff Nichols. Com apenas 35 anos, natural do Arkansas, Nichols regressa a casa nesta sua terceira longa-metragem após uma digressão pelos campos do Ohio no imprescindível “Procurem Abrigo” (2011). O tom de “Fuga” é diferente: em espírito de “coming of age”, longe do doce sentimentalismo de “Stand By Me”, conta-se a história de dois putos de 14 anos, Ellis (Tye Sheridan) e Neckbone (Jacob Lofland), discípulos do rio Mississípi e aventureiros de água doce. Um dia, explorando um barco deposto no topo de uma árvore por uma cheia antiga, o par conhece Mud (Matthew McConaughey, cada vez melhor), um bicho do mato supersticioso, com a tatuagem de uma cobra no dorso e o sonho de fuga com o amor de sempre, Juniper (Reese Witherspoon). Mud matou no Texas o amante ricaço de Juniper, que a maltratava, e mantém a polícia e a família do defunto à perna. Ellis, numa bondade intocada pelos ventos da cidade, já tem problemas que chegue. Os pais estão prestes a separar-se, a casa flutuante onde vive será demolida e apaixonou-se por uma liceal três anos mais velha. Talvez por isso, decide investir tudo no sucesso de Mud e Juniper.

Com o fantasma de Mark Twain a assombrar cada travelling pelas águas do Mississípi, Jeff Nichols assina mais um conto de ilhas familiares à deriva num mundo esmagador, fixando a câmara à altura de Ellis e de Neckbone – é pelo olhar dos miúdos que vemos tudo, e que mais queremos ver. Passo a passo, ele constrói uma obra a partir da sua família de colaboradores, do irmão e músico Ben Nichols ao inevitável Michael Shannon, do compositor David Wingo ao director de fotografia Adam Stone. Com Rian Johnson (“Brick”, “Looper”) e Shane Carruth, de quem o magnífico “Upstream Color” aguarda estreia em Portugal, Jeff Nichols é agora o mais promissor cineasta da América.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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7 respostas a Crescer

  1. Genial o filme, Pedro. One hundred per cent mud. Quando o vi, vi-o sem “ver” o realizador. Actores, ambientes, mise-en-scène, uma gema!

  2. Fico contente por termos visto com os mesmos amados olhos, doutor.

  3. olinda de freitas diz:

    é pelo, e a, olhar dos miúdos que vemos tudo. curiosidade aguçada.

  4. Desde o “Sem Abrigo” que estou de olho no Jeff Nichols. Com a caução dos mestres Marta e Fonseca, já estou a caminho da sala de cinema.

  5. nanovp diz:

    Por tua culpa fui ver e muito gostei. Filmagem cuidada, entre “close-ups ” fortíssimos das faces dos “putos”, aos planos abertos sobre a paisagem do Mississipi, personagem quase central do filme. O “canastrão” Matthew McCo­naughey porta-se bem, com a ajuda de um leque muito bom actores que inlcui o sempre grande Sam Shepard de barba rala branca e barriga…

  6. Olinda, vai ver, que isto do tempo e dos euros deve ser gerido com clínica acuidade. Diogo, gostei mais do “Take Shelter”, mas qualquer coisa que este tipo faça é de seguir com atenção. Fico contente pela dica ter servido para alguma coisa, Bernardo. Eugénia, acho que vai apreciar estes planos americanos à altura da adolescência.

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