Dark Lolita

 

"Ao Som de Um Outro Amor", de Ry Russo-Young

“Ao Som de Um Outro Amor”, de Ry Russo-Young

Num dos mais belos filmes dos anos 50, “Bonjour Tristesse”, dirigido com o rigor elegante de Otto Preminger, uma jovem, Cecile (Jean Seberg), destrói em poucas semanas as esperanças do pai (David Niven) de recuperar o equilíbrio amoroso junto de Anne, uma antiga namorada (Deborah Kerr). Cecile é a crueldade com rosto de anjo, no estio da Côte D’Azur.

Lena Dunham, a autora prodígio da série televisiva “Girls” – tem 27 anos e a “Time” incluiu-a nas 100 figuras de 2013 – talvez tenha (re)visto o filme de 1958 quando escreveu este “Ao Som de Um Outro Amor”. Terceira longa-metragem realizada pela actriz Ry Russo-Young, é o registo da estadia de Martine (Olivia Thirlby), fotógrafa nova-iorquina de 23 anos, na casa de uma família de Silver Lake, Los Angeles. Martine está ali para trabalhar uns dias com Peter (John Krasinski), um reputado editor de som, na sua curta-metragem/instalação sobre a vida dos insectos. Peter é casado com Julie (Rosemarie DeWitt), uma psicanalista, e habitam uma vivenda muito hip nas colinas com o filho pequeno de ambos e a adolescente Kolt, fruto do anterior casamento de Julie. Martine é uma mignone atraente, criativa, de inteligência aguda. É também um motor de combustão sexual: do passageiro ao seu lado no avião que a trouxe a L.A. até ao assistente de Peter, passando pelo próprio sonoplasta, ninguém resiste à presença casual mas sedutora da intrusa. Há um perturbante desprendimento nas palavras e gestos de Martine que a tornam cúmplice da protagonista de “Bonjour Tristesse” (serão avó e neta?). A húbris por vezes inconsciente de Cecile transforma-se aqui em egoísmo existencial – Martine quase destrói a família que a recebeu mas não pensa um segundo no assunto, como uma entomologista que lida com formigas. É essa a sua natureza, e a ausência de autoanálise coloca-a próxima da sociopatia. Não é um grande filme, mas capta o ar do tempo como poucos.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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7 respostas a Dark Lolita

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Mignonne, allons voire si la rose… E quem resiste – ou porque resistiria – às mignonnes?

  2. Pedro Marta Santos diz:

    Fod…! No feminino leva dois “n”… Lá se vão os 7 anos da Alliance Francaise… Na substância efervescente, acho que vais gostar da fita, doutor.

  3. cheira-me a guisado de interesse, hum. 🙂

  4. Broto da Salva diz:

    e a voire vamos, que aquele/a húbris a muito a/obriga 😉

    fujamos, não! mas f…. estamos 😉

  5. Não conhecia sequer o nome… Mas captar o ar do tempo enquanto ele corre é uma boa razão para passar a conhecer.

  6. nanovp diz:

    Pois parece merecer a pena, até porque guardo memorias desse “Silverlake” onde vivi dois anos…

  7. Obrigado pelos vossos comentários, doutor, Olinda, Brutíssimo e Eugénia. Sequioso dessas histórias de lagos prateados, Bernardo.

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