Despertar

RENOIR~1           Renoir, Le déjeuner des canotiers

No meio da multidão, por entre os muros lisos do jardim enorme, que escondiam a cidade, C. sentiu uma vontade premente de chorar. À sua volta um sentimento de alegria, risos em caras alegres, vozes que se perdiam umas nas outras transformadas em sons irreconhecíveis mas melodiosos para alguns, uma variedade de corpos e rostos, os movimentos desconexos de quem não precisa de saber para onde vai. O parque verde, de altas árvores, a sombra fresca que lambia os corpos meio despidos no fim de tarde de verão. Nada no entanto a conseguiu conter. Por entre todo aquele espalhafatoso aparato caíram grossas lágrimas salgadas sobre a sua pele lisa. Felizmente tinha levado os óculos escuros. Ninguém parecia notar. O choro não era necessariamente resultado de uma qualquer tristeza, era antes um sabor estranho de saudade, aliado a uma réstia de outro sentimento que afluía como rajada de vento, vergastando o corpo. Limpou as lágrimas com a ponta da camisa fina, leve, que vestia e lhe trazia, como tudo mais agora, outras memórias que não conseguia controlar.

Seria uma doença, tudo o que via, tudo o que sentia parecia-lhe despontar uma irresistível vontade de chorar? Até no amor se perdia em lágrimas, para grande embaraço do seu companheiro, que a inundava de perguntas.

A noite começava a cair, aproximou-se, com algum esforço e uns pequenos empurrões, de um dos locais onde serviam bebidas. Parou para olhar à sua volta. Um homem alto e bem-parecido, desligado do burburinho, olhos distraídos fixados no horizonte que agora tombava em cores perdidas no escuro. Um sentimento de calma, um olhar seguro de quem sabe ser humilde, pensou. Sentiu a terra a rodar, suavemente, o vento como carícia. Aos poucos recuperou o controlo dos sentimentos, sentiu-se aberta, janela por onde passa o ar fresco, o whiskey a saber a veludo na garganta.

O mundo afinal fazia sentido, como uma cantata de Bach, ou o ruído do vento a passar por um portão de ferro. Sem pensar respondeu prontamente ao convite para dançar, entrelaçando o seu braço no do anjo bonito que, sabia, tinha descido do céu especialmente para si.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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6 respostas a Despertar

  1. chorar é tão bom que até é motivo para escrever. e para ler. e para sorrir. 🙂

    • nanovp diz:

      Tudo devia ser motivo para escrever…pelo menos aqui para os meninos e meninas tristes….e para ler e sorrir também, porque não….

  2. António Barreto* diz:

    Gostei!

  3. É bonito o que escreveu de um choro sem tristeza. Às vezes chora-se só por se estar perdido entre estranhos, como as crianças.

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