Já Henrique não sou…

O nome Henrique veio para Portugal trazido pelo francês ou pelo provençal, há dúvidas. Pode ter sido, até, introduzido pelo pai de D. Afonso Henriques (Henriques significava filho de Henrique, como Pais filho de Paio, que é o nome contraído de Pelágio – e vem a dar o Sampaio, porque o Pelágio ou Pelayo foi Santo depois de derrotar os mouros em Covadonga e era San Pelayo, ou seja, Sampaio -, e Nunes filho de Nuno e Rodrigues filho de Rodrigo, etc.), mas a verdade é que segundo José Pedro Machado (oito tomos finalmente desempacotados na nova casa) já tínhamos um Henrico em 1097, um Enrichus no ano seguinte, um Anrichus um ano depois, 1099 e um Anricco (gosto especialmente deste) em 1102.

O pai do do nosso pai, D. Afonso, que era Henriques porque este se chamava Henrique

O pai do do nosso pai, D. Afonso, que era Henriques porque este se chamava Henrique

Ficaram na pequena história da documentação medieval  um Anrrique de Fyguerredo, um Anrrique dalmeyda Pasaro, um Anrrique de Saa, um Anrrique Correia, um Anrrique da Motta e um Anrrique de Souza (e ainda um monteiro que se chamava Anrrique, mas não necessariamente Anrrique Monteiro). No Auto da Barca do insuperável Gil Vicente, aparece um precioso dom Anrique a ir direto para o Inferno, pelo que se vê que nisto de Henriques há os bons e os maus, como em tudo.

Do que não há dúvida, é que se trata do nome provençal Anric, ou Enric ou Enrich do posterior catalão. No século XIII, em França, já havia Henri, a forma moderna do nome em francês (que em italiano é Enrico, em espanhol Enrique, em alemão Heinrich e em inglês Henry).

Sabe-se, ainda, que para o original provençal a palavra veio do germânico Haim (casa) e Ric (poderoso, forte), sendo pois um nome que indica quem possui ou domina uma casa rica ou forte.

É aqui que bate o ponto. Tenho a casa, não sou assim tão para o forte ou para o rico, mas escuso de dizer mais porras e não me queixo. Mas o meu nome agora deveria ser Hencáustico, das raízes germânicas Haim e chaotisch (desarrumada, desorganizada, feita num oito ou num molho de bróculos). Encontrei o Machado, o Houaiss e o Morais, não morro por falta de dicionários, mas onde param o raio das meias, agora que tenho frio nos pés?

E já agora, sabiam que pé vem do latim pede, a mesma palavra para pata ou garra e que a sua forma mais antiga em português foi pee lido com duas sílabas pe-e. Pois é, está no testamento de D. Afonso II!

Como veem, livros tenho, mas as meiinhas é que calhavam… Lá tenho de ir procurá-las!

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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6 respostas a Já Henrique não sou…

  1. António Barreto diz:

    Um “drama” bem comum, esse; e não só para os Anriques!

  2. adelia riès diz:

    😀
    Empresto umas rôxo cardeal. Muito chic. 😀

  3. Francisco Silva diz:

    Já a palavra “meias” vem do…

  4. Dia frio, dia quente, deixam o pé incongruente. Valham-nos os livros, Henrique.

  5. nanovp diz:

    Meias são só para os pés Henrique, não peças emprestadas!

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