Lugar da sombra

Nunca diria mais luz
embora não me desagradem
estas danças da tarde sobre
os degraus nem as vozes metódicas
vindas de uma linguagem que
me é alheia como o são as flores
na janela ou as alegrias demoradas.
A minha casa é onde
as sombras se juntaram.
Para elas desenhei longas escadas
onde dormem, quando esfria,
hipérbatos sem-abrigo que
ninguém quer. Por isso, a luz
tanto me faz, é sempre ao crepúsculo
que desce o primeiro verso. Véu ou
asa rasgada, deusa complacente.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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12 respostas a Lugar da sombra

  1. Ó Ivone, então manda-me o tio Antero ao crepúsculo, perdão, à fava?

  2. já eu só vejo nisso que escreveste, Ivone, um lugar de luz.

  3. E um lugar cristalino:

  4. Brito da Selva diz:

    Já que se apagou o comentário que aqui coloquei, gostava de saber qual é o sentido dos ‘hipérbatos’?

    Tristemente obrigado 🙁

  5. Um hipérbato é uma figura de estilo de nível sintáctico.

  6. nanovp diz:

    Mas com uma luzinha lá ao fim não Ivone????

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