O James Hunt é o meu herói

 
 O James Hunt é o meu herói. Quem se lembra da personagem ou acabou de ver o Rush numa sala de cinema vai-me já atirar à cara que sabe bem porque fiz do James – eu e mais milhões de pessoas em todo o mundo – um herói. Então se o homem dormiu com 5000 mulheres e nem sequer chegou aos cinquenta anos de idade, se chegou ao ponto, segundo dizem, de o ter feito com trinta e três numa única noite, por sinal dois ou três dias antes de se sagrar campeão do mundo de Fórmula 1 em 76, como podia ele não ser o herói de qualquer macho que se preze? Então se o homem arriscou a vida para arrancar o Ronnie Peterson quase cadáver do seu Lotus em chamas, não merecia uma estátua só por isso? Então um tipo que diz à boca cheia que até está preparado para morrer para a vitória não lhe fugir, tem ou não tem ainda mais pinta de herói do que aqueles que dão o peito às balas na primeira linha de combate de um campo minado? E, numa idade em que não se dá ouvidos aos bons exemplos, como ficar indiferente a alguém que, sem abdicar um bocadinho que seja de uma vida de playboy desregrado, com muito álcool, drogas e sexo sempre à espreita, consegue ser um destemido campeão? Pois é, gritam-me aos ouvidos que isso de considerar o James Hunt um herói é coisa óbvia, que afirmação mais banal não há, e que, num tempo em que os heróis escasseiam, soa a saudosismo bacoco.

É capaz de ser tudo verdade, sim senhor. Mas a razão que fez o James Hunt o meu herói não teve nada a ver com essas verdades todas. O James Hunt foi o meu herói porque fez de mim campeão na única vez em que fui campeão na vida. Corria o ano de 1980, o James Hunt já tinha largado a Fórmula 1, e eu, na pequenez dos meus treze anos, a ser levado em ombros até ao mar pelo areal da Praia da Rocha. A última prova do campeonato de caricas desse ano tinha acabado e eu, sem saber como, chegava à frente de outras dezenas de participantes (talvez não fossem tantas dezenas assim, mas eu aprendi com o James Hunt os tiques mais básicos da gabarolice). Uma pista de areia por dia (feita pelo vencedor da prova da véspera) durante todo o mês de Agosto, e, digo-vos, pistas mais sofisticadas não havia, tantos eram as pontes, túneis, buracos, chicanas e outros obstáculos que tive de ultrapassar para merecer o passeio em ombros e os gritos desenfreados de “campeão, campeão!” à minha volta. Tal como o James depois de 76, nunca mais experimentei o sabor de um título. E tal como o James, também tive sorte. A dele, foi o azar do Niki Lauda, que, ao ficar de fora em algumas provas cruciais depois do brutal acidente de Nurburgring que o desfigurou, desperdiçou a vantagem que tinha. A minha foi a sorte de a minha carica, a carica vencedora, toda ela plastificada e cheia de mariquices que a faziam deslizar pela areia mais do que as outras, estar identificada com o nome, vejam lá se adivinham, do próprio James Hunt, pois é.

Trinta e três anos depois, tantos anos quantas as beldades que o James despachou naquela noite premonitória da sua sagração, já o meu título tinha caído no esquecimento quando o Ron Howard – quem diria, o Ron Howard, um homem que eu julgava incapaz de me arrancar de casa – fez mais pela minha auto-estima do que teria feito uma que fosse das trinta e três beldades, tivesse eu os 29 anos boémios e desregrados que o James Hunt tinha quando foi campeão. Lembrou-me que, afinal de contas, um dia, cheguei a ser herói, na minha modestíssima escala. Mas, acima de tudo, lembrou-me que posso até um dia perder a memória toda, menos a daqueles que me deram direito aos meus quinze minutos de heroísmo.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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11 respostas a O James Hunt é o meu herói

  1. que texto tão lindo. (e dá gosto ler que afinal de caricas só vale mesmo a pena despachar as que ficam) 🙂

  2. Diogo, campeão, também tiveste equipas de futebol de onze em caricas, do glorioso SLB até ao Botafogo de Ribeirão Preto? O que eu gramava de jogar caricas na Vila Alice, todas equipadas e com os nomes dos jogadores, Pelé, Suarez, Dennis Law, Best, Eusébio e Simões. E não me venhas agora dizer que tiveste uma equipa de futebol feminino…

  3. Pedro Bidarra diz:

    E o filme, vale a pena ver? Ou é só caricas?

    • O filme, não sendo uma obra-prima, vê-se muito bem. Bom ritmo, alguma tensão nas cenas de velocidade (filmadas com grande estilo) e, à parte os facilitismos e os piscares de olho ao grande público na descrição das personagens (típicos do cinema hiper-comercial do Ron Howard), está bastante fiel àquilo que sempre nos contaram sobre Hunt e Lauda.

  4. riVta diz:

    Diogo! Diogo! Diogo!

  5. Rita, os teus gritos elevam a minha auto-estima aos píncaros. Melhor do que ter trinta e três beldades a chamarem por mim.

  6. nanovp diz:

    Depois de ler o texto até podia ser o meu herói também, mesmo sem caricas, e ser levado em braços …

    • Diogo Leote diz:

      E, talvez por pudor, comecei por escrever 500 mulheres em vez de 5000. Talvez me parecesse heroísmo a mais para um campeão. Mas, enfim, agora que rectifiquei o número, espanta-me ainda menos que não tenha chegado aos cinquenta. Quem vive on the fast lane arrisca-se a morrer cedo.

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