Reflexão opus 7 (a mentira do quarto poder)

A tenebrosa organização do 4º poder

A tenebrosa organização do 4º poder

A imprensa nunca foi quarto poder nenhum. Foi e é, por vezes, o quarto do poder – o local onde o poder troca roupa gasta e suada por outra menos repelente, ou se maquilha ou se arranja ou ensaia ao espelho uma atitude.

Não me façam rir, se a Imprensa é o quarto poder, depois do Legislativo, Executivo e Judicial descritos por Montesquieu no seu magistral ‘O Espírito das Leis’, em que lugar fica a banca? Em quinto? E a energia, a Galp, a EDP? Em sexto? E as Telecom? A Zon, a PT?

Querem saber quem inventou a Imprensa como quarto poder? Foram os verdadeiros poderes, aqueles que têm legitimidade para impor e os verdadeiros poderes fácticos, aqueles que, mesmo sem legitimidade, podem impor-se. Deste modo, colocaram a imprensa quase ao nível dos outros poderes, e acima dos seus próprios, de modo a questionarem a legitimidade e espontaneidade do escrutínio que a imprensa deve ter. Quando falam do quarto poder, não falam em submeter-se a ele, mas em submeter esse poder a leis e regulamentos que eles pretendem.

E os jornalistas, claro, ajudaram, porque são vaidosos e gostam de pensar que são importantes, sem saberem que nas suas costas, os que mandam, se riem deles todos os dias, ao ler certas coisas que eles queriam que fossem lidas ou ditas assim mesmo.

(Não me excluo)

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a Reflexão opus 7 (a mentira do quarto poder)

  1. Bruno Gomes diz:

    Bem visto. Mas mais do que a estratégia que visou a “criação” deste 4º poder artificial (e vamos a ver se o monstro não se revolta contra o criador) é especialmente preocupante as reduções de pessoal nas redações. O jornalismo de investigação é cada vez menor, assim como a formação pessoal e cívica de muitos jovens jornalistas, que se sentem mais atraídos pelas grandes empresas de comunicação que tanto fazem branding para o WC pato como para um político (não obstante um pretender tirar o mau cheiro e o outro, salvo as devidas e honrosas excepções, deixar um pivete indisfarçável por onde passa).

  2. riVta diz:

    nao sei Henrique, mas há quartos onde o poder se tece

  3. António Barreto* diz:

    Em democracia, o poder; o 1º poder, é de quem controla a opinião pública, ou seja, de quem controla a CS, incluindo a imprensa, incluindo os jornalistas. Estes, em geral, não têm poder, quem os controla tem! A independência jornalística é uma utopia só ao alcance de muitíssimo poucos; a maioria, quer ter “donos”…ordenado…etc e tal…jornalista anti-poder é jornalista sem trabalho; não faltam argumentos “democráticos” para os pôr no olho da rua! Claro que há excepções, poucas, mas há; tanto quanto enxergo, HM é uma delas.

  4. Henrique Monteiro diz:

    Assim não vale. Confundir poderes informais com formais, de influência com impositivos. O primeiro poder, numa democracia, é o poder legislativo que vem do voto popular; o segundo o Executivo, que deriva do legislativo; o terceiro o judicial. Só estes podem – EFECTIVAMENTE – mudar a sua vida. Por leis, decretos e sentenças. Nenhum dos outros o pode fazer.
    Portanto, começar por “quem controla a opinião pública” é batota. Isso seria dizer que as eleições dependem das preferências dos medias e vários países (incluindo o nosso) já o desmentiram várias vezes. Olhe, cada vez que ganha o Cavaco, por exemplo (e já lá vão cinco).

    • António Barreto* diz:

      Formalmente, a CS não conta…a não ser o DG; nessa distinção é que está o erro; a CS condiciona a eficácia do poder formal; assim sendo, o poder informal, subjuga o formal, invertendo os pressupostos do regime, transformando-o numa espécie de “democracia quântica” (desculpe a expressão); às vezes é, outra não, às vezes ali, outras acolá…tal como o gato de shrodinger! As democracias implodirão se não se materializarem nas vertentes informais, a par com o aperfeiçoamento das outras, as formais. Mas lá está; formalmente, está tudo certinho!

  5. José Pedro Rodrigues diz:

    Meu Caro

    Ele há,de fatco ( ou será de fato, com ou sem gravata???) destas particularidades…
    Alguns católicos mais frequentadores das missas de domingo de manhã, confessam-se com regularidade.
    O quarto poder ( não sei se é quarto com vista para a Cidade) tem esta tendência de aproveitar o léxico e baralhar a semântica.
    Mas a merda acaba por ser sempre a mesma, e creio ( sem nenhuma fé) que nem uma missa, com um requium pelas vítimas da imprensa, poderá salvar as almas de tamanhos pecadores…

  6. nanovp diz:

    Gostei do “quarto do poder”….dava um bom livro, ou uma boa serie daquelas que o Bidarra e o Diogo andam a ver…

Os comentários estão fechados.