Sono tão lascivo como lasciva foi a satisfeita noite

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Rolla de Henri Gervex

Falemos, então, do apogeu da procura e oferta do corpo feminino. E talvez seja melhor olhar, olhar para este quadro de um tempo em que o bordel começava a rivalizar com a igreja como lugar de destino e culto. O quadro é de Henri Gervex e basta olhar para logo nos começar a cheirar, se permitem que meta o nariz onde ele não é chamado. Cheira a academismo, claro.

“Rolla” (1878) foi pintado alguns anos depois da “Olympia” de Manet., A Gervex e a este “Rolla”, o nome do homem encostado ao balcão, inspirou-os um poema de Alfred de Musset. O centro do quadro é Marie, a prostituta adolescente – tão novinha, santo Deus – pela qual Rolla, consumido pela paixão, pagou uma noite de amor. Queria tê-la, amá-la, uma noite que fosse, fosse o que fosse que tivesse de pagar. Dissipou assim todo o seu pecúlio, as últimas notas, umas conseguidas com a venda de uma pistola, outras emprestadas pelos amigos, aos quais jurara que, obtidos os favores de Marie (Marion), a luz do sol já não o voltaria a encontrar com vida.

Cara, muito cara, Marie. Agora, a morte espera o apavorado Rolla, enquanto o corpo macio de Marie se espreguiça num sono tão lascivo como lasciva foi a satisfeita noite que os lábios inchados denunciam e a descuidada mistura da roupa dos dois confirma.

Marion-buste

seios, candeeiro e pérolas

A bela coxa direita soerguida, a esquerda tombada, o lençol a morrer-lhe onde Rolla pequenamente morreu toda a noite, foi a paz da puta, a tranquila volúpia do quarto, aquela vulva em tão consolado remanso, que levaram os organizadores do Salon desse ano a proibir a exibição de “Rolla”, apesar de Henri Gervex ter ganho já o Salon em ano anterior e estar, por isso, dispensado de submeter a obra à aprovação do júri.

Proibiram “Rolla” e Rolla para ali, eternamente encostado à janela, sem pistola para estoirar a cabeça, obrigado a suicidar-se sem saber como, para não desapontar (desolé monsieur) os amigos que, com essa condição, lhe tinham emprestado o dinheiro para a louca noite de amor.

Gosto do luxo do leito, do candeeiro azul-turquesa, do negligente colar de pérolas, da invasora luz matinal, gosto de ver caído no sofá (diz-se que por sugestão de Degas), o corpete atravessado pela cana da inútil bengala. E depois, para além da portada aberta, Paris, o indiferente boulevard.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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6 respostas a Sono tão lascivo como lasciva foi a satisfeita noite

  1. É tão bela. Tanta juventude em flor. E este abandono? E o escandalozinho da bengala em meio às roupas uma grandíssima provocação ao burguês – e sem burguês não vai à exposição que o burguês é como a Marie, mas ao contrário, paga a quem o serve que viver é caro.

    Era giro, depois do seu livro de crónicas estar organizado, fazer um só com os textos dos seus bonecos e a verdade e a mentira e a deriva neles. Boa?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Viver só não é caro quando se é juventude em flor. Um dia destes ainda me convence que se podem publicar livros… eu que só penso em e-books. Thanks pelos mimos.

  2. Luis Lopes diz:

    A Moral e os Bons Costumes,por vezes são caros e não prestam.Aqui estragariam toda a Beleza.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Obrigado Luis, mas na aparente devassidão desta tela de Gervex há alguns bons costumes em fundo: dormir com mulheres e respeitar a palavra dada aos amigos.

  3. der diz:

    Marie não era uma prostituta, mas sim uma virgem aristrocrata que enganou um pobre burguês.
    Dorme feliz por já não ser virgem e mais ainda por ter sido ela a escolhê-lo. Já ele o pobre do burguês não sabe o que fazer, agora que o dia a revelou.

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