Subir a montanha

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Ai e tal que o Maomé não veio a nós e nós temos que ir à montanha. E pronto, lá temos de subi-la, coisa que não paramos de fazer há cinco anos (ou serão já 10?).

Subimos e uns vão ficando para trás, nem os vimos, salvo aqueles que nos querem passar à frente, porque – dizem – representam os que ficam para trás e querem falar com os da frente e isso tudo, e berrar para que não se suba a montanha, para que o Maomé venha cá abaixo, se quiser vir, porque senão mudamos do Maomé para outro qualquer.

Outros clamam: eu bem vos dizia, ó povo ignaro, que o Maomé não aparecia. Aliás, já a história da terra prometida estava muito mal contada ao Moisés. Eles enganam muito, é o que é.

Que não – dizem com voz barítona os que mandam e se transportam em confortáveis liteiras. O esforço vai diminuir. Não vêm já o planalto e lá mais à frente Maomé, o próprio, carregado de bênçãos e de ouro para nos satisfazer?

Ninguém vê… mas que fazer? Voltar a descer e deitar fora o esforço? Ficar ali entre o nada e o coisa nenhuma? Matar os das vozes barítonas? Continuar a subir e a ver os que caem? E se somos nós a cair?

Subimos a montanha há 10 anos (ou serão já 15?) e tudo continua na mesma. Ao fim e ao cabo, o nosso desígnio é subi-la. Não, Sísifo não tinha razão, nunca voltamos lá abaixo para, de novo acartar a pedra vereda acima. A estrada é mesmo a subir, sempre a subir até cairmos exaustos. Mesmo os que vão de liteira têm a sua hora – em que caem e são espezinhados pelos que correm na convicção de que já viram o fim da estrada. Ilusão, pura ilusão.

Subamo-la, ao menos, com dignidade e decoro. Como verdadeiros cavalheiros e irrepreensíveis damas. Mas sem ilusões – o Maomé não está lá no cimo nem em lado nenhum… Talvez se divirta, quem sabe se não é isso que ele faz?

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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6 respostas a Subir a montanha

  1. podia ser um título assim: de cinco em cinco vai regando maomé, o Henrique num sobe – que não desce – a pique. 🙂

  2. Henrique, a montanha não se mexe um milímetro e Maomé não é tipo de se divertir nem um bocadinho. Fosca-se que isto não está fácil.

  3. Vozes e nozes diz:

    Henrique, Henrique…

    E se nós virássemos as costas à montanha e a Maomé? Do género: sobe tu! Se me chateares muito, como-te o fígado! Bradamerda!!
    Aparentemente o problema está no facto de darmos demasiada importância a fições alegóricas.
    Não devíamos! Parece que estamos todos fadados para ao determinismo …
    Aqui onde me encontro, que não é mais do ao nível da lagartixa, sinto-me totalmente impotente, exangue e (credo, cruzes!!), raivosa!

  4. Mário diz:

    Mas tem de ser esta montanha? não se arranja uma com menor inclinação? É que a subida não é para se fazer toda de uma vez, é para se ir gerindo…

  5. Luísa Tavares de Mello diz:

    Henrique Monteiro,

    Compostura enquanto se é seviciado? São nobres os seus propósitos mas não me parece adequado, sob pena de ser apelidada de masoquista que é coisa que não sou.

    Estou no grupo dos exangues mas não dos conformados.

    Enganou-se nas contas. Embora muitos não tenham querido ver, porque havia mais migalhas, a subida a que se refere começou há 25 anos. Bodas de prata para quem não acredita em casamentos?
    Não!

  6. nanovp diz:

    É tudo uma questão de perspectiva Henrique, houve muitos anos que pensávamos estar a chegar lá cima , quando afinal estávamos na caverna do Platão, sem o sabermos…

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