Todas as faltas devem inspirar indulgência

Audran

Foi-lhe tão fiel esta Femme Infidèle

Há mais ou menos três anos, o realizador francês Claude Chabrol chegou ao céu. Vieram agora dizer-me que, mal chegado, se instalou logo no bairro mais gourmet, à direita do palácio onde vive Deus. Não me admira, toda a narrativa chabroliana é burguesa e gulosa. E lembro que a qualidade que ele preferia num homem era a urbanidade (e por isso fez “Le Boucher“). Numa mulher, a inteligência (e por isso filmou “La Femme Infidèle“).

E ainda mais me espanta que haja quem pense que, por muito admirar Hitchcock, mas afinal muito mais se parecer com Fritz Lang (“Sem Lang, Hitchcock nunca existiria“, explicou a quem o quis ouvir) , Chabrol não merecesse o céu. Ora, Chabrol não é nenhum Savonarola, nunca quis queimar ninguém, quis, e o seu cinema quer exactamente, as intrigas amorosas trespassadas de ciúme e crime, a clandestinidade do sexo, a gula e mais não sei quantos pecados capitais, mas tudo sabendo que, no essencial, os homens são bons e as mulheres muito boas. Ou seja, todas as faltas lhe inspiravam a maior das indulgências.

Sem este mundo, de apetites e indulgência, Chabrol ficaria orfão. Chegado ao céu, e havendo lá, como há, um quartier gourmet, onde é que julgavam que ele iria morar?


uma pequenina contribuição para a história da nouvelle vague

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

12 respostas a Todas as faltas devem inspirar indulgência

  1. isto porque a urbanidade é inteligente e a inteligência, rural. ora tal mistura gulosa é petisco.

  2. António Bareto* diz:

    Claude Chabrol – que não conhecia -, merecerá o bairro gourmet no Céu, nem por um momento duvido, mas…aquela femme infidèle, merecerá toda a indulgência do mundo caso caia na tentação do pecado!

  3. nanovp diz:

    Tenho a certeza que Chabrol perdoou tudo à sua “sua” , verdadeira, Femme Infidéle…e nós também….

  4. riVta diz:

    Incrível. era quase um filme por ano.

  5. Há absoluta redenção na Femme Infidèle. Não se pode ser mais cristão do que isto. Haveria de passar a eternidade onde?

    Que lindas pernas…

  6. Pedro Bidarra diz:

    Desculpem repetir o comentário mas as pernas, meu Deus, as pernas.

  7. Pedro Marta Santos diz:

    Do Chabrol, até dos amuses bouche gosto.

Os comentários estão fechados.