Uma pérola do cinema nazi

MarikaRokk

Marika Rökk foi uma das pérolas, mulher de tantos sonhos

É verdade que Ernst Lubitsch, Fritz Lang e mais uma dúzia de génios se puseram rapidamente ao fresco. Mas houve outra mão cheia de talentos que ficou na UFA e serviu os objectivos de Josef Goebbels. Resultado: houve mesmo pérolas no cinema do Terceiro Reich.

Porque é que gente culta e sensível aceitou exprimir pontos de vista que hoje nos parecem obviamente repulsivos? Nos tempos em que eu me enfronhava em bibliotecas, li neste “Film in Third Reich”, de um academíssimo D. S. Hull, as seis hipóteses mais comuns:

1º) “Em todos os cestos de ovos há sempre maus ovos”, ou seja, há sem­pre gente que por má-fé ou estupidez subscreve pontos de vista absurdos.

2º) “Toda a gente é oportunista”, desde que receba o estímulo e incentivo conveniente.

3º) “Os artistas são simplesmente tontos, e têm a inteligência de um bebé e a moral de uma puta de Hong-Kong”, colocando acima de tudo o seu narcisismo.

4º) “Na Alemanha nazi toda a gente era nazi, que é que estavam à espera?”, donde se segue que todos os filmes nazis eram maus e fascistas.

5º) A síndrome do “Fui obrigado” que não merece comentários.

6º) A diáfana teoria “A arte é apolítica e deve pairar sempre acima da política” que se defronta “apenas” com a pequenina chatice que são os filmes anti-semitas (alguém os fez, não é?).

A bem dizer, a conversa quase mal se aplica a este “A Mulher dos Meus Sonhos”. Georg Jacoby, seu realizador, foi um cineasta do escapismo e do divismo que, tivesse tido a sorte de ser americano, acabaria a trabalhar com Busby Berkeley. E, no seu íntimo, esteve sempre mais ao serviço do belo físico de Marika Rökk, do que do raquítico Goebbels. Aliás, casou-se com ela e, que se saiba, nunca se casou com Goebbels.

Este “Die Frau Meiner Träume” filmou-o Jacob, em 1944, quando os caminhos da guerra já semeavam dúvidas, mesmo nos mais patrióticos espíritos. Era um daqueles musicais que distraindo animava, que fugindo fazia sonhar.  

Por mim, troco todo o filme pelo número musical de abertura que podem ver abaixo. Nesse e no número final, ambos inegavelmente berkeleyanos, há qualquer coisa que não vi em mais lado nenhum. O agfacolor não explica tudo. É verdade que as cores do pro­cesso inventado pelos alemães tem características muito especiais, mas não são os tons castanhos, nem são só aquelas tonalidades dos vermelhos a fazer a diferença. É também a iluminação, são os fabulosos décors, a começar pe­lo décor de lua e barcos da primeira canção, atravessado pelo vestido negro de Marika Rökk, a mantilha vermelha sobre os ombros, as rosas no cabelo e a canção de amor e solidão (“In der Nacht ist der Mensch nicht gern alleine”). Tudo se con­certa – e a mise-en-scène de Jacoby também – para que tudo bata fatalmente certo nesse primeiro número. Tudo é estilização (a luta dos bailarinos) tudo é arte de câmara (o impressionante plongé da dança), tudo é artifício (o voo de Marika Rökk que desmancha qualquer probabilidade de conversão cénica). A partir desse voo (contos de fadas, “Peter Pan”, “E.T.avant la lettre, tudo é para aqui chamado) o delírio é total: a espantosa caixa do vestido, o porteiro do hotel, o salão de espelhos e frisos de coristas e o final rompendo pelo enorme coração: “Die Frau ohne Herz”. E foi assim que, mulher sem coração, Marika Rökk se tornou na mulher de todos os sonhos, incarnando um ideal alemão em que o erotismo parece casar-se com uma vontade determinada e um temperamento sem quebranto. 


primeiro é o genérico e, um minuto e vinte e dois segundos depois, a Marika

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a Uma pérola do cinema nazi

  1. sabes, quero que seja a primeira hipótese. e que continues a escrever sempre e muito, claro. 🙂

  2. riVta diz:

    uhm … já percebi que está entre Bullock e Arendt mas escolhe Rökk
    😛

    • Rita, a ter de escolher, escolhia mesmo a Bullock, mas para a semana, se ler o Expresso, já vê… Até parece que não sabe como eu sou dado ao imperialismo americano. Quem criticamente me topa é o Táxi Pluvioso.

  3. nanovp diz:

    Fica a pérola :uma bela e sedutora Marika, que não conhecia. (Vê lá a ignorância…)!

  4. Não deixa de haver humor na concretização pelo judeu da grandiosa imagética nazi. Já dessa mulher portentosa não me espanto muito: a vocação para o domínio sonha e aspira com uma subjugaçãozinha à porta fechada.

    São cores de Schiele, não são?

    • Eugénia, o director artístico deste filme foi Erich Kettelhut, por acaso (ou não) o mesmo de “Os Nibelungos” e “Metropolis” de Fritz Lang. Era um tipo culto, com educação artística de Belas Artes. Schiele não lhe era, com toda a certeza, estranho. Tem ares, não tem?

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