A Cabeça de Edgar Pêra

Está nas livraria um livro de Edgar Pêra – julgo que as livrarias, lugares habitualmente plácidos, estarão loucas de excitação. O livro chama-se “Hollywood, Estórias de glamour e miséria no império do cinema”. Deixem-me apresentá-lo.

A Cabeça de Edgar Pêra

O Pink’s é na esquina de La Brea com a Melrose. Para quem tenha boas pernas, pode sair-se do glorioso portão da Paramount, o 5555 Melrose Av., e atravessar os restos históricos da quinquilharia punk, dispersos por uns quatro ou cinco quarteirões, até se chegar à La Brea e ver a tasca com os mais lendários hot dogs de L.A. Há chili, dogs, burgers, french fries, tal e qual como no dia e hora da sua fundação, em 1939, o melhor ano – ever – da história de Hollywood.

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em La Brea: um furtivo relance de Hitchcock, a incomestível Mae West.

Em pé ao balcão, sentados nas mesas das traseiras, pairam por ali as sombras de Groucho Marx ou Marlon Brando, um furtivo relance de Hitchcock, a incomestível Mae West. Eu já dei de caras com o Edgar Pêra no Bairro Alto, a descer a Calçada do Combro, a filosofar no Jardim da Estrela, até mesmo à entrada ou saída do Rivoli, no Fantasporto. Mas onde eu queria ter visto Edgar Pêra, era no Pink’s, um hot dog para ele, outro para Mrs. Muir.

A cabeça de Pêra é californiana, uma cabeça de Santa Monica. Perdão, é mais uma cabeça de Burbank, de um dos neighbourhoods do vale, mesmo ao lado da Warner Bros, a fábrica mais fábrica da fábrica de sonhos que é Hollywood. A cabeça de Pêra não é nada portuguesa. É uma cabeça carregada de imaginação, mas com mãos. As cabeças portuguesas têm imaginação e uma cambada de lágrimas e suspiros, que é isso que dá as saudades. A cabeça de Pêra é californiana porque tem mãos e, nas mãos, uma nervosa câmara de filmar.

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A cabeça de Pêra é californiana porque tem mãos e, nas mãos, uma nervosa câmara de filmar

Já me sentei, na MGM que agora é Sony, na cadeira oscilante em que visionava Irving Thalberg. Na Paramount, estive na sala em que Louis B. Mayer, convidado, visionou “Sunset Boulevard”, duas filas atrás de Billy Wilder. Deus abençoado, cheira a selva. Eram caçadores de cabeças. Raptaram cabeças de todo o mundo, a cabeça sueca de Stiller, a cabeça austríaca de Preminger, a cabeça francesa de Renoir, a cabeça alemã de Fritz Lang, a cabeça húngara de Michael Curtiz. Falta ali uma cabeça portuguesa. Como teria ficado a cabeça portuguesa, tão californiana, de Edgar Pêra, nas mãos lendárias e gentias dos selvagens Zanucks, Selznicks, Goldwyns?

Um editor decidiu, em boa hora, pôr a cabeça de Hollywood nas mãos de Edgar Pêra. Crapulagem, como lá mais adiante, no livro, diz Jerry Lewis. A hell of a rider, digo eu. Edgar Pêra, o homem da câmara de filmar, pratica neste livro uma espécie de cine-antropologia exuberante. É sempre uma trans qualquer coisa, uma transescrita, que nos teletransporta, que transdimensionaliza os filmes e nos leva para uma kino-arena pejada de cine-corpos.

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Uma Paramount transdimensionalizada. Foto de Harry Lang.

O livro de Edgar Pêra sobre Hollywood pratica também a cine-ubiquidade: descobrimos que Mae West usava mamilos postiços ao mesmo tempo que um dos caçadores de cabeças (era um génio, só pode) dá a Buster Keaton a maravilhosa ordem de nunca sorrir.

Como todos os verdadeiros intelectuais, Edgar Pêra farta-se de pensar em dinheiro e é em dollars, sexo e intriga que Hollywood nos é contada. Em centenas de histórias babilónicas, histórias de stars & stripes, histórias de boxe e botox, “Hollywood, Estórias de glamour e miséria no império do cinema” é, por isso, um livro maravilhosamente trans-político, impregnado pela conspiração permanente de uns tipos que pensam tudo em função de dinheiro e poder.

Há uma página em que Edgar Pêra invoca um pioneiro, Edwin S. Porter, e um filme dele, o mais exemplar a mostrar o encontro do espectador crédulo com o cinema. Este livro controverso e empolgante, em que Hollywood morre uma dúzia de vezes (para ressuscitar outras tantas), este livro de magia ao preço da chuva (e que bom num mundo de caríssima seca), restitui-me à inocência: sou, como sempre quis ser, um desses espectadores crédulos. Ou melhor, leitor. Sejam-no também.

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A capa do livro. Para ler já

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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11 respostas a A Cabeça de Edgar Pêra

  1. riVta diz:

    a despertar o voyeur que há em cada um de nós?

  2. Turismo orgânico e interno, portanto: que bem apresentado, fartei-me de ficar curiosa. Também quero ler.

  3. Pedro Bidarra diz:

    Vou ler pois com dedicatória do autor e tudo. E quanto à cabeça do Edgar digo-vos que é do mais transcerebral que existe.

  4. olinda de freitas diz:

    se fosse mesmo à portuguesa tinha de ser uma cabeça de pêra bêbeda – e se calhar é mesmo.:-)

  5. nanovp diz:

    “Spicy and hot” Manuel, vou ver se arranjo….fartei-me de comer o chilli dog do Pink’s…e sobrevivi!

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