A Fada Malvada no Reino da Estupidez – ii

A lite­ra­tura não pode ser ensi­nada. Ensi­nar seja o que for é apre­sen­tar um ins­tru­men­tal ade­quado e expli­car a maneira de uma pes­soa tirar pro­veito dele. Daí resulta que se ensina a escre­ver estu­dos sobre lite­ra­tura, e estu­dos sobre os estu­dos de lite­ra­tura, inde­fi­ni­da­mente; ou ainda se ensina a ensi­nar literatura.

 Jorge de Sena in O REINO DA ESTUPIDEZ

O REINO DA ESTUPIDEZ
– DESTA VEZ SEM RIMAS BEBÉS NEM i, ii e iii
iv
BEIJA O AR E MAIS NADA
auto-retrato
A arte é filha da consciência da beleza
e da certeza da morte
É inútil como eu:
a poesia não serve para nada
nem a literatura nem o funcional ensaio –
espelho apenas do mundo útil
Mesmo o amor fonte de tudo
não serve para nada senão para amar
e fazer poesia literatura ensaio
é o círculo fechado da inutilidade de sentido
em movimento perpétuo: beija o ar e mais nada
Tenho um infinito depósito de prendas inúteis
dons de nascença
reforçados por uma auto-didáctica pré-pós moderna
inútil
Amo sou bela inútil vejo a lindeza tamanha e sei que morro:
farei uma inevitável obra-prima

 

Beija o ar e mais nada, de José Régio, que beija o ar, e mais nada, e lindeza tamanha in Fado Português

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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10 respostas a A Fada Malvada no Reino da Estupidez – ii

  1. recuso-me a viver disso
    desse amor estupor
    que de tão inútil só serve
    para amar o amor
    deixando a matéria à deriva
    o lugar onde estamos e somos
    a brecha por onde o amor nos lê
    e à mercê
    da utilidade de quem não ama
    quer-se dizer
    de quem não vê

  2. Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo
    Mas Carolina não viu…

  3. riVta diz:

    tem piada Eugénia como inevitável em inglês se diz de duas maneiras: inevitable & unavoidable no entanto alguém disse que «cansamo-nos de tudo menos de compreender»
    so…it seems you have eternity para essa cousin-art
    😀
    thank dog
    ps
    ou será cuisine de l’Art

  4. A poesia não é espelho, é luz de mundos, alguns dos quais são deste mundo e outros que são só mundos do mundo que a poesia é. A poesia é luz como luz há-de ser essa inevitável obra-prima.

  5. Henrique Monteiro diz:

    Let there be light: and there was light; and God saw the light, that it was good. And God divided the light from the darkness. Como o Manuel, estou nessa

  6. Pois é, rapazes, como o tio Sena também dizia:

    une toute petite lumiére
    just a little light
    una piccola…em todas as línguas do mundo
    uma pequena luz bruxuleante
    brilhando incerta mas brilhando

  7. nanovp diz:

    Não se ensina a arte, não se ensina a poesia, a literatura. E não se escolhe a luz, porventura ela escolhe-nos a nós….

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