Aparição

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No meio do terreiro vazio, cercado por fachadas lisas onde as janelas parecem bocas abertas sem dentes, as rachas do tempo como linhas desenhadas por um artista desgovernado, os grãos de terra que esvoaçam com a brisa leve do vento, as nuvens brancas que correm no céu ainda azul, a corda fina que pendura roupa lavada que seca, à medida que o calor esmaga com a passagem das horas, (camisas azuis de colarinhos ressequidos e calças de flanela brancas, meias finas de seda). Ao fundo um gato que adormece na tarde de calma, as patas a esconder a pequena cabeça peluda, as ervas verdes, daninhas, que brotam das ranhuras da própria terra, mais escura, onde os vermes se deliciam na escuridão do húmus negro,  molhado da réstia da água que alimenta o mundo; o enorme portal de Madeira desgastado, aberto, com as ferragens penduradas a badalar com o vento, e a silhueta da cidade ao fundo.

Apareceste. Ali no meio desse terreiro perdido.

O coração rebentou-se-me de memórias violentas em nada comparáveis ao álcool rude e puro que agora bebo de garrafas lisas e transparentes, e que me corrói o fígado e lança as gotas grossas de suor por todo o corpo, este corpo ressequido, marcado pela pele maltratada do sol que queima e transforma tudo em tons escuros.

Apareceste. A mala azul pendurada no braço longilíneo, calculado proporcionalmente para o resto do corpo, o pescoço como pedestal para uma cabeça brancusiana, oval e perfeita. Os olhos azuis que me afogam de tonturas.

Olho os pássaros que corriqueiros atravessam o ar como se fossem tempo sem massa, as folhas caídas das árvores a saber a musgo, o cheiro dos troncos verdes de seiva misturado com o sal do mar longínquo. Tudo para te poder ver sem me cansar, e atravesso planícies de terra queimada, pomares exuberantes na luz da lua cheia, (as lágrimas a caírem como cascata em serra alta), os rebanhos a tinir sob o calor da tarde, e imagino-te, distante como sempre foste, no alto da ravina de rochas ásperas que reflectem o mundo perdido cá em baixo em tumultos de dor e saudade, enquanto lagartos castanhos se agarram ao sol, ao doce vento a saber a madressilva, ou às flores minúsculas que crescem entre as gretas rochosas da areia fossilizada.

Esperei-te de noite, sentado na varanda, sobre a baia escura sem lua, o suave bater das vagas da maré cheia que seduzem a praia num vai e vem continuo, sem conseguir dormir, nem com o corpo encharcado e a alma sentida, magoada por ser agora tempo de velhice, a juventude que foge, que corre como que para parar o tempo, sobre as folhas enormes das árvores de borracha onde se escondem as cobras sinuosas e falsas que rastejam sobre os ramos apodrecidos na mata escura.

Esperei-te de noite. Sentado na varanda, como se a noite fossem dias e semanas, o cabelo a crescer, a face enrugada, as mãos trémulas do temor da solidão que lembra o casario deserto de tectos altos onde a hera cresce pelas paredes alisadas no tempo da geada, no chão esburacado e no uivo da água que corria do tanque, trazendo pequenas ramos no embalo da corrente, fria, límpida, as ervas verdes submersas como cabelos ao vento no reflexo da terra.

Esperei-te de noite, sempre de noite, mas agora a cidade é escura lá fora, distante no olhar nublado da janela do autocarro que parece andar sozinho e sem amor pela estrada cinzenta ordenada, como os candeeiros acesos de luz amarela, ou as árvores tristes que não devem crescer sob os viadutos escuros da metrópole distante, desumana, perdida no tempo incerto das máquinas.

Esperei-te. E apareceste.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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10 respostas a Aparição

  1. riVta diz:

    Uf! ainda bem que apareceu…
    😀

  2. olinda de freitas diz:

    isso é a prova de que os cabelos e as barbas com riças de espera afinal compensam e as rotinas estéticas não passam de isso mesmo.:-)

  3. Esperar dá muitas saudades.

  4. Esperança é essa espera, não é?

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Tão belo, deuses!

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