Liv Ullmann, actriz de Bergman. E vão quatro…

liv ullmann

 Liv Ullmann roubou tudo a Harriet Andersson. Roubou-lhe, senão o exclusi­vo, pelo menos a primazia da atribuição do qualificativo «bergmaniana». Roubou-lhe o exclusivo dessa absoluta, radical e tumultuosa fusão das relações profissio­nais e amorosas com o autor de “A Paixão“.

Primeiro, Bergman viu-a numa fotografia, ao lado de Bibi Andersson. Diz-se que a semelhança física das duas o sobressaltou. Chamou-a e, em “Persona“, Berg­man converteu essa afinidade física numa afinidade moral. Ullmann fecha-se num mutismo obstinado e Andersson exorciza-lhe o silêncio com um discurso torrencial e confessional. Os silêncios de Liv Ullmann são como um buraco negro: chupam toda a palavra alheia.

Quando Bibi Andersson lhe conta a sua aventura erótica, olhamos para o rosto de Ullmann e, diz Bergman, «verificamos que incha sem parar. É fascinante — os lábios dela en­grossam, os olhos escurecem, e ela converte-se na própria imagem da avidez sensual. Vemos o seu rosto transformar-se numa más­cara voluptuosa.» Por isso se pode dizer que ela é a suprema encarnação da «actriz bergmaniana»: está talhada para os gran­des planos. Conforme confessa: «Quanto mais sinto uma câmara perto, maior é a von­tade que tenho de mostrar o meu rosto a nu, de mostrar o que está por detrás da pele, atrás dos olhos, na cabeça. Mostrar os pen­samentos que se formam.»

De “A Hora do Lobo” à “Paixão“, passando pela “Vergonha“, Bergman pediu-lhe uma «sombria luz interior» que desse a ver as mulheres nevróticas de que ela era a más­cara. Quando ele quis, Ullmann foi res­plandecente: a mais branca das mulheres brancas que conversam numa sala completamente vermelha em “Lágrimas e Sus­piros“. Escondia numa aparente doçura a cólera, o medo e a infinita crueza que só foi capaz de dizer, por palavras, uma noi­te, a Ingrid Bergman. Numa sonata de Outono.

Não é sueca, é norueguesa. Se for a Os­lo, arrisque-se a bater à porta do n.° 91, Drammenviens.

Vão quatro e já não vai mais nenhuma.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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7 respostas a Liv Ullmann, actriz de Bergman. E vão quatro…

  1. olinda de freitas diz:

    ó. às tantas no 91 chupa-se a palavra alheia. 🙂

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Palavras alheias de excelência são melhores que alheiras com ‘pedigree’ caseiro e transmontano. Acompanhadas por grelos cozidos, depois salteados, melhor.

  3. The best for last. Se fosse o Ingmar Bergman também tinha misturado tudo, amor e trabalho e o que mais houvesse.

  4. nanovp diz:

    Não devia ser possivel separar nada mesmo, quando na frente da cãmara aparecia Liv….

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