O homem que morreu três vezes

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Na vida, com a honrosa excepção de grande bebedor de cachaça que lhe trouxe a alcunha, Quincas Berro d´Água não se distinguiu especialmente. Mas na morte, sim, foi um recordista absoluto: três vezes – três – Quincas se finou para o mundo. E só na última das mortes se deixou ficar bem morto porque só então morreu como queria, longe de todas as convenções sociais que ele repudiara naquele dia em que saíra de casa para comprar fósforos e não mais voltara, deixando para trás uma vida pacata e cinzenta, onde o formalismo e a aparência imperavam, dedicada à família e ao emprego de funcionário público.

Depois dessa partida sem aviso prévio, foi tal a entrega de Quincas a uma vida indecorosa, feita de devassidão e ressacas em tabernas e prostíbulos, que a sua família abandonada e temente a Deus, para evitar falatório, o declarou oficialmente morto. Para ele Quincas, foi essa primeira morte – a morte moral – que, paradoxalmente, o fez nascer para a vida. Para a vida e em especial para a cachaça, que passou a merecer-lhe um amor que foi crescendo na exacta proporção em que aumentava a repulsa pelo mais sensaborão dos líquidos, a água claro está. Uma tarde, depois de uma caminhada bem íngreme, Quincas, julgando ter na mão um copo da sua mui querida cachaça, levou à boca um trago de água, soltando o tal “berro d´água” que, por se ter ouvido em toda a cidade de Salvador da Bahia, ficou para a história.

Muitos litros de cachaça depois, Quincas acabou por ser encontrado sem vida, no quarto imundo para onde a sua morte moral o empurrara. A família, para quem ele já não existia como ser vivo, tratou de resgatar o cadáver assim que o viu morto de verdade, não fosse Deus lembrar-se de a punir pela falta de um enterro decente ao quem era sangue do seu sangue.

Mas ainda faltava uma morte à contabilidade oficial. Os seus companheiros de boémia nunca poderiam permitir que Quincas morresse segundo as convenções. O mínimo era oferecer-lhe uma última noite de farra, nos “bas-fonds” de Salvador que constituíam o seu ambiente natural, partilhando mais uma bebedeira com as prostitutas e os meliantes que se tinham tornado na sua família adoptiva. E assim foi: esses seus companheiros, que já não distinguiam um morto de um vivo de tão afogados pela bebida estavam, lá levaram Quincas, uma vez mais, para perto dos seus, transportando-o da solenidade e rigores do levório para onde ele se sentia verdadeiramente livre e autêntico. Depois das rondas habituais, lá acabaram todos embarcados, com as companhias que Quincas tanto apreciava. Para a intensidade do momento ser perfeita, não poderia faltar a natureza, que ajudou à festa com uma violenta tempestade e que satisfez a Quincas o seu desejo de sempre, o de ser enterrado no mar, onde morreu, agora sim, de vez e como ele queria.

Pouco importa que Quincas, ou Joaquim Soares de Cunha que era o seu nome de baptismo, nunca tivesse existido de verdade. E, pouco importa que, segundo a ciência médica, duas das mortes fossem um tudo ou nada adulteradas pela pena de Jorge Amado, que o imortalizou na novela A Morte e a Morte de Quincas Berro d´Água (a que, em rigor, se deveria ter chamado A Morte e a Morte e a Morte de Quincas Berro d´Água), que, com As Aventuras e Desventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso (uma das outras histórias que a minha memória guardará para sempre, e a que aqui já fiz referência), formou um dos seus livros míticos, Os Velhos Marinheiros. Quincas não era adepto de regras e rigores, como vimos, e não ficaria bem ao seu pai amarrá-lo a cânone algum – médico, teológico, literário ou qualquer outro. Afinal de contas, era da liberdade (contra o preconceito) que Jorge Amado nos estava a falar.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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11 respostas a O homem que morreu três vezes

  1. olinda de freitas diz:

    morri d’amores por esta prosa. e agora só volto a morrer com outras, das tuas, assim.:-)

  2. Fazia-nos aqui muita falta um boémio a rigor. Ombro a ombro com Jorge Amado. Bem trazido.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Delicious!

  4. nanovp diz:

    Que belo livro que é também um grito…e agora venha dai um copo Sr. doutor….

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