O Muro de Palavras

“A preocupação latente nesta exposição prende-se com a ambiguidade e com os paradoxos inerentes ao exercício da hospitalidade, com os postulados que definem e condicionam os usos da arquitetura. Os conteúdos e situações geradas pelos trabalhos ali presentes destabilizam as regras e os compromissos subjacentes à ocupação e uso do espaço para levantar questões acerca dos lugares do dia-a-dia, da forma como nos relacionamos com eles e como eles nos fazem relacionar com o outro. Na intimidade que estabelecem entre lugar e ocupante cada um dos trabalhos exerce formas de hospitalidade. Seja para evidenciar os conflitos inerentes ao seu exercício ou para lembrar a urgência da sua aplicação, para instigar encontros inesperados ou para promover oposições, ou convergências, ou combates, ou consensos.”  Texto de um curador.

A maior barreira à entrada no mundo da arte, e nos museus e galerias que a celebram, sempre foi, para mim, o muro de palavras que o envolve. Um muro erigido por críticos, jornalistas, curadores, comissários e às vezes pelos próprios artistas; um muro de palavras que não comunica.
Na semana passada fui gentilmente convidado para falar no Encontro Museus e Monumentos, no Convento de Cristo em Tomar, sobre comunicação. Aparentemente, neste nosso mundo sem dinheiro, a principal preocupação dos gestores da cultura é atrair novos públicos para a sua causa: para a arte e para os eventos culturais. O encontro era sub-titulado “Comunicar, Inovar, Sustentar”. A minha apresentação chamou-se “O Muro de Palavras” que é também o título de um documentário que tenho estado a preparar.

Como é sabido, o mundo da arte é, tendencialmente, alérgico ao marketing. E com toda a razão. O marketing é uma prática que tem como objectivo criar vantagem e apelo nos produtos para atrair consumidores. Apenas uma parte do marketing é comunicação; a parte mais cara mas não a mais importante. A mais importante é o desenho do produto ou do serviço de modo a satisfazer necessidades do consumidor. Não é, obviamente, esse o papel da arte. Pelo menos não é esse o seu papel imediato. Talvez seja o de satisfazer as necessidades da comunidade ou da sociedade mas, para o fazer, nem sempre satisfaz as necessidades do dia, do contemporâneo; as necessidades das instituições e pessoas com alicerces na convenção e no status quo. O benefício das artes e dos seus conceitos só mais tarde são visíveis na sociedade. Nesse sentido podemos ver a arte como um investimento que só rende lá longe. Ao contrário das invenções, que são mantidas secretas nos laboratórios até chegar o momento da sua utilidade brilhar à luz do dia, a arte e os seus conceitos, para cumprirem a sua missão, têm que ser públicos. ” Se uma árvore cai na floresta e não houver lá ninguém para ouvir, se não houver um tímpano para vibrar, a árvore não faz barulho” diz-nos um provérbio chinês. É por isso que a comunicação é precisa.
Não que os textos herméticos, sofisticados e complexos não tenham valor e não tenham que ser escritos; não que as obras não tenham que ser analisadas e contextualizadas; mas estes textos que aparecem em jornais, catálogos e na comunicação, e que constituem, muitas vezes, o único interface com o mundo, não têm valor comunicacional para os novos públicos que os museus, as galerias e a arte procuram. O muro de palavras que cerca o mundo da arte e que impede o neófito de entrar, tanto quanto impede os que lá vivem de olhar para o resto do mundo, é o contrário de comunicação.

“O pós-estruturalismo, com origem linguística no francês, tem uma obsessão por palavras que o torna incompetente para iluminar qualquer forma de arte que não seja a literatura […] uma das razões para a actual marginalização das belas artes radica no facto de os artistas falarem para outros artistas e para um círculo fechado de hip cognoscenti que perdeu o contacto com o público em geral, cujos gostos e valores eles caricaturam e troçam” diz-nos a Camille Paglia no seu livro Glittering Images.

No documentário “O Muro de Palavras”, que estou a produzir, pedimos a pessoas para lerem textos que acompanham as obras de artes e as exposições. Mostramos textos de crítica, de anúncios de eventos culturais, textos dos curadores de exposições, comunicados à imprensa e artigos da imprensa especializada e perguntamos aos sujeitos que os leram do que tratam? que dúvidas têm? o que não perceberam? o que esperam encontrar na dita exposição? e se têm ou não vontade de ir vê-la?
Textos como o que está transcrito no início deste post.
As pessoas que recrutámos para este documentário são cidadãos com formação universitária, que viajam e que têm hábitos de leitura. Pessoas acima da “média”, portanto, como a Susana: formação superior, psicoterapeuta, 40 anos, dois filhos, vive na grande Lisboa; não tem hábito de ir a exposições e museus a não ser quando convidada para um evento de croquetes, o que acontece 1 vez por ano, mas vê imagens de arte e design nas redes sociais, Pinterest e noutros sites; tem livros de arte em casa. Ou como o Miguel: formação superior, gestor, vive em Lisboa, leitor compulsivo de romances e dos clássicos; não tem amigos artistas nem frequenta meios intelectuais; não foi a uma única exposição ou museu no último ano; viajante frequente, visita tudo o que é museu e monumento por esse mundo fora.
A estas e a outras simpáticas cobaias demos a ler os textos que referimos e percebemos que as palavras não ajudavam, não abrem portas, não iluminam antes pelo contrário. Percebemos que os textos, ao cercar o mundo da arte de vocábulos e conceitos nem sempre entendíveis para o público não habitual, o afasta em vez de atrair. Obscurece em vez de iluminar.
Muitas serão as barreiras a remover para que as pessoas que têm capacidade para entender o fenómeno cultural e artístico tenham também vontade de o procurar. A comunicação é uma das maiores.
Mas tem que ser assim? Haverá, como há na cabeça de muitos dos habitantes deste chamado “mundo da arte”, apenas dois tipos de texto: o elitista e o infantilizado? A comunicação e a sociedade não é tão binária como estas pseudo cabeças a vêem.
Para atrair novos públicos não é necessário fazer arte ou produzir obra que o público goste ou queira ver – isso é o que faz o marketing de produtos quando os molda aos gostos e necessidades dos consumidores. Trata-se sim de revelar a obra através de uma comunicação didática, entusiasmante; uma comunicação que a ilumine e que ajude o neófito a ler, ou pelo menos a querer ler a obra; uma comunicação que veicule, para os novos consumidores, os benefícios de as ver e entender.
Nem toda a gente nasce preparada para a arte. Como nem toda a gente não nasce preparada para a matemática. Isto não significa que não possa explicar-se uma equação, um problema e a sua resolução a quem não é génio ou a quem não entende intuitivamente a matemática. Isto faz-se com boa comunicação.

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O curioso e paradoxal no muro de palavras que envolve a arte e a cultura é que a arte europeia começou por ser comunicação ao serviço da iluminação da palavra. Foi esse afinal o seu papel durante séculos, iluminar o que não se entendia, explicar, mostrar o que estava inacessível; abrir ao público em geral – e geralmente analfabeto – o difícil mundo de palavras e conceitos que era (e é) a religião. Durante séculos uma das principais funções da arte na cultura europeia foi ajudar a trazer às igrejas, e à fé, públicos renitentes que não chegavam lá pela palavra.
Duchamp, numa entrevista à BBC no fim da vida, dizia que a arte se assemelhava cada vez mais à religião. É verdade. Uma religião das mais herméticas. Uma religião com os seus acólitos, com as suas diferentes igrejas e capelas, como os seus santos, os seus praticantes, os seus sacerdotes e os seus sábios que falam com outros sábios e que olham, ao longe, para o povo analfabeto e incapaz de entender o mundo de rituais verbais e ideias feitas que existe nas suas caras, vazias e frias catedrais. Como dizia um director de museu, com grávitas, “a arte é uma coisa muito séria, com a arte não se brinca”. Soa mesmo a religião.

“[Em Roma] os frescos e as pinturas das igrejas estão no centro das conversas, as pessoas comprimem-se para ver as novas obras, esperando, por vezes horas, para atingir a soleira da porta das igrejas” diz-nos Gilles Lambert num texto sobre Caravaggio.

Foi o que aconteceu com a estreia do “Martírio de S. Mateus” de Caravaggio na Igreja de S. Luigi dei Francesi no início do 600. O povo fez fila para ir à Igreja ver a “palavra”. A palavra difícil, distante, iluminada pela arte.
Hoje a arte, uma religião com os seus dogmas, os seus textos herméticos, os seus mistérios e eucaristias, se quer mais fiéis terá que utilizar “truques” para iluminar as suas obras; como o cristianismo fez quando convocou as artes para iluminar a palavra.
Talvez, numa inversão da história, seja o tempo da palavra que ilumina. Talvez a palavra possa ser uma chave e não o muro que impede a entrada de mais fiéis nos museus.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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25 respostas a O Muro de Palavras

  1. Gostei muito, Pedro. E desejo-lhe bom sucesso com documentário – diga o quando e o onde para assistir.

    • Pedro Bidarra diz:

      Dir-lhe-ei. Quando a realizadora voltar, que entretanto teve que ir ganhar a vida lá para fora. (O doc é todo pro bono; da arte, claro está)

  2. olinda de freitas diz:

    tão, imensamente, interessante! esse projecto. podias dar um exemplo dos teus, palavras sem muros, para o primeiro parágrafo chato – só para ver a ideia.

    (vê, por favor, terceiro parágrafo. foi por fui.)

  3. Ora bem, queridíssimo Pedro, não poderia estar mais de acordo. Vou é ignorar teres estado em Tomar, aqui a dois passos, e nem água vai.

  4. António... Bilhas diz:

    “Muro que cria barriga, está para cair”… iluminado texto, Pedro… isolas o paralelepípedo. Gostei verdadeiramente! (vou dar a ler a uns quantos meus “pares” aqui?)

  5. Mário diz:

    Não basta alterar os conteúdos e os meios de comunicação, é preciso criar hábitos. No estado do País a cultura não é, de todo, prioritária – nunca o foi. Quem lê textos sobre exposições? quem vê os magazines culturais? por mais apelativos que sejam. Poucos. Começa-se nas escolas – haja dinheiro para saídas. Tire-se a arte dos museus e ponha-se nas empresas, no metro, nos cafés, na rua e não tenha dúvidas, ela vale por si só, dispensa-se a palavra. Levei com Amadeo Souza-Cardoso aos 15 anos, não percebi nada, mas nunca mais me esqueci.

    • olinda de freitas diz:

      eu, Mário. pelo menos vou sem ir – isto se a boleia não for chata e pedante como o primeiro parágrafo, claro. e é por isso que urgem boleias Pidarras.

    • Pedro Bidarra diz:

      É verdade, as barreiras são muitas.

  6. Marcel diz:

    Lembrou-me de uma entrevista feita por um critico de arte à Paula Rego, ele descrevia um dos seus quadros – com palavras de dicionário – comparando a subtileza, o traço, as cores a um artista muito conceituado (não me lembro qual) ela deixou-o falar e depois respondeu que nunca tinha pensado nisso, na verdade tinha era bebido uma boa garrafa de vinho antes de o pintar.

    Já fui a muitas exposições, já passei pela escola da mais dura das moles (artes) cá e lá fora. E parece-me que o problema não está em não saber comunicar, mas em controlar o Ego.

    Os bons são normalmente muito simples com as palavras/ego.

  7. nanovp diz:

    Na “mouche” Pedro, arrepio-me cada vez que vejo os meus estudantes de “Projecto” de arquitectura a terem de fazer no ano final uma “Dissertação” de 150 páginas quando deviam era…projectar!
    É como pedir ao Jimmy Page para fazer uma Memória Descritiva que explique o solo de guitarra no “Stairway to Heaven”… A Paglia deve ter razão: há uma predominância do texto nas belas artes, onde não se justifica…e, para além de tudo o resto, comunicam muito mal…

    • Pedro Bidarra diz:

      Verdade, a arquitectura parece padecer de um acesso de palavrite ou curadorite. Cada vez que se vao a uma exposição, há um muro de palavras a tentar-nos convencer que o edifício não é bem um edifício. Que o desenho da coisa é o desenho de outra coisa. Parece que têm vergonha de ser arquitectos.

  8. Pedro, não podia estar mais de acordo. Chateiam-me duas ordens de razões: 1. Há muitas barreiras, muros e cercas para delimitar os quintalinhos e os quintalinhos são muito pequeninos, nenhum chega a Badajoz. 2, Nenhum deste tipos é um bom operário: se tivessem jeito de mãos, saberiam trabalhar o tijolo, a madeira, o arame com outra elegância e desembaraço. Um tipo que diz que a “exposição latente se prende com a ambiguidade e um paradoxo inerente” está, de certeza, à beira de ser um martelo.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Após as ideias assertivas, falta visionar o documentário. Fico à espera, Pedro Bidarra.

  10. Isabel Nunes diz:

    A arte pela arte. Hoje em dia o objectivo é contextualizar tudo, a teoria ultrapassa a prática, na arte é preciso meter a mão na massa, mas hoje o conceptual está na moda, ter ideias está na moda. Artes plásticas, ou se gosta ou não se gosta, ponto final, eu não vou gostar mais de uma peça de arte se o autor tiver que me explicar o porquê. Vivemos num mundo cada vez mais conceptual, mais teórico, estamos a perder algumas capacidades como a de pegar num lápis e simplesmente escrever palavras, basta clicar em teclados. É daí que surge e se desenvolve exponencialmente o conceito e não a coisa em si.
    Se não tentássemos explicar a obra de arte e se fossemos fiéis ao nosso gostar sem preocupações bacocas com a opinião de pseudo críticos o mundo da arte seria mais aberto, mais libertador e mais vivenciado.

    • Pedro Bidarra diz:

      Toda as artes (que não toda a arte) todas as escolas têm o seu fascínio e os seus encantos. Eu gosto do mundo conceptual e do conceptualismo tanto quanto gosto das coisa retinais, de ver e sentir sem saber porquê.
      Quando se trata de arte conceptual, ou de ideias que são teóricas, a explicação ajuda a trazer para perto e aumenta o fascínio. Como a matemática. Eu posso olhar fascinado para um quadro de ardósia repleto de simbolos, como boi para palácio. mas quando os entendo, acredite, o fascínio aumenta

  11. Pedro Marta Santos diz:

    Muito bom. O raciocínio aplica-se, de resto, não só às curadorias, aos materiais de promoção e às monografias como à generalidade da crítica, seja o alvo as artes plásticas, a literatura, o cinema ou a música. Como alguém acima mencionou, o tijolo de que se fazem esses muros é o ego, e a argamassa será o terror de ficar do lado de fora do muro, junto da escumalha popular. Quando as palavras são máscaras e simulacros, perdem a nobreza da sua função, prostituindo quem as utiliza. Porque a simplicidade exige sempre grande inteligência.

    • Pedro Bidarra diz:

      Lembro-me, quando era menino, de ouvir e ler esses egos insuflados e achar que era estúpido. Durou pouco. Logo logo percebi que não. Apenas usavam muito masi vocabulário do que eu para dizer muito menos.

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